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Homilia nos 60 anos da morte do Padre Américo Monteiro de Aguiar PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2016

1.Perfazem-se, hoje, 60 anos sobre a morte do Padre Américo Monteiro de Aguiar, entre nós carinhosamente conhecido por Pai Américo, graças à Obra da Rua que fundou e ao desvelo paterno que tinha pelas crianças, pelos pobres e pelos doentes.

Mesmo aqueles que não o conhecemos pessoalmente em vida, temos presente a imagem veneranda, que as fotografias reproduzem, de um sacerdote revestido da capa eclesiástica cruzada sobre a batina preta. Nestas imagens espelham-se as preocupações que lhe iam na alma e o cuidado incansável pelos pobres que lhe habitava o coração.

Este é um dia de oração, de memória e de contemplação. É meu dever e meu desejo conduzir-vos às raízes da sua alma e às fontes da sua Obra. Convido-vos a percorrermos, em conjunto, as veredas da sua vida e a adivinhar, com a sua ajuda, os caminhos do futuro da Obra da Rua, para a colocarmos, ao ritmo de cada tempo, ao serviço da causa dos pobres.

 

Américo Monteiro de Aguiar nasceu, a 23 de outubro de 1887, em Galegos, Penafiel. Era o oitavo filho de uma família cristã, de lavradores locais. O seu pai era natural de Galegos e a sua mãe era oriunda de Paço de Sousa, no mesmo concelho de Penafiel. Foi baptizado, a 4 de novembro seguinte, na igreja matriz de Galegos. Deve a escolha do seu nome de baptismo à admiração que seus pais e padrinhos tinham pelo então Bispo do Porto, Cardeal D. Américo Ferreira da Silva. Entre os sete irmãos, um deles, o mais velho, José Monteiro de Aguiar, foi sacerdote e trabalhou primeiramente em Cochim, na Índia e, mais tarde, em S. Miguel de Penafiel.

Américo Monteiro de Aguiar iniciou os estudos na escola primária da sua terra natal. Foi posteriormente aluno do Colégio de Nossa Senhora do Carmo, em Penafiel. Daí transitou para o Colégio de Santa Quitéria, em Felgueiras. Já nesse tempo manifestara a seu pai o desejo de ser padre. Não foi esse, todavia, o entendimento do pai. E, graças a esta recusa da família, vamos encontrá-lo, no termo dos seus estudos elementares e liceais, em 1902, a iniciar o seu percurso profissional, como trabalhador numa loja de ferragens, propriedade de um amigo do pai, na rua Mouzinho da Silveira, no Porto.

Em 1906, com dezoito anos apenas, parte, a convite de familiares e amigos, para Moçambique e aí desenvolve uma diversificada e bem sucedida actividade profissional, primeiramente na área comercial e, depois, na administração pública local. Após dezassete anos de trabalho em Moçambique regressou a Portugal, em 1923.

2. Ao longo deste tempo, distribuído por diversificadas e múltiplas actividades, convivendo com realidades diferentes, ocupando-se de trabalhos e missões aparentemente distantes da vida eclesiástica, Américo Aguiar nunca perdeu o desejo de ser padre. A proximidade vivida, em Moçambique, com Frei Rafael Maria da Assunção, sacerdote franciscano, posteriormente nomeado Bispo Prelado de Moçambique, ajudou Américo Aguiar a consolidar as razões desta procura e a fortalecer a coragem para perseverar nesta determinação. É a ele que várias vezes se refere para agradecer a ajuda que lhe deu no aprofundamento da fé, na aproximação do ideal sacerdotal e na decisão primeira de ser franciscano e, posteriormente, verificando que não era esse o seu caminho, na persistência de bater às portas de um seminário diocesano.

Deus abriu-lhe, a 3 de outubro de 1925, as portas do Seminário Maior de Coimbra, pelas mãos do bispo D. Manuel Luís Coelho da Silva, natural de Bustelo, em Penafiel. Depois de completar os estudos filosófico-teológicos, Américo Aguiar foi ordenado presbítero no dia 28 de julho de 1929.

No primeiro ano de ministério permaneceu em Coimbra, por mandato recebido do Bispo D. Manuel Coelho da Silva, que o acolhera no Seminário e ordenara para o serviço da Diocese, como professor do Seminário.

No ano seguinte e dada a sua precária saúde foi incumbido de um trabalho pastoral, aparentemente menos pesado do que a missão de formador no Seminário, que consistia em cuidar dos pobres, dos reclusos e dos doentes. Esta decisão compreensiva, marcada pela bondade e pela visão pastoral do Bispo diocesano, e esta obediente e pronta aceitação da missão que lhe foi confiada vão decidir para sempre o futuro do seu ministério.

3. Aí se enraíza, também, a dimensão da grandeza deste sacerdote: ser “recoveiro dos pobres”, ser “apóstolo da rua”, ser “caminheiro da caridade”, segundo as suas próprias palavras, como tanto gostava de se autodefinir.

O Padre Américo viveu esta missão com paixão, correndo as ruas da cidade do Mondego. Escreveu no Correio de Coimbra numa linguagem frontal sobre a situação dos pobres. Para dar respostas criativas às novas formas de pobreza nunca se cansou de bater à porta da generosidade de tanta gente, para que diariamente acontecesse o milagre da multiplicação dos pães na mesa dos famintos. Lembro do Padre Américo esta firme e bela convicção, que constitui um sábio conselho pastoral: “A gente aprende a bater às portas ricas, por muito entrar nas portas dos pobres”. Que o digam, na nossa cidade, os habitantes da Ribeira, os pobres do Barredo, as crianças da Sé e dele falem as escarpas do Douro, no Porto e em Gaia, que tantas vezes percorreu!

E é esta experiência de andarilho de Deus, de quem não se cansa de calcorrear os caminhos dos pobres, que levam o Padre Américo a criar as colónias de férias para crianças, a adquirir, com as economias que lhe restaram do seu salário em Moçambique, uma quinta para elas, em Miranda do Corvo, e aí abrir a primeira Casa do Gaiato, em 7 de janeiro de 1940.

Depois vem o Lar de Coimbra, destinado aos rapazes que querem prosseguir estudos. Pouco tempo após abre a Casa do Gaiato de Paço de Sousa, na terra da sua mãe. A seguir surgiram as oficinas, as escolas, o jornal O Gaiato, o património dos pobres. Mais tarde e sucessivamente nascem as Casas do Gaiato do Tojal, de Setúbal e dos Açores, as colónias de mar de Azurara, Mira, Ericeira, Arrábida e Sintra. Finalmente vem a hora do Calvário, a sua última obra, e, porventura, a mais esperada: “Uma obra de doentes, para doentes e pelos doentes”!

O Calvário foi inaugurado no dia 12 de julho de 1956. Depois deste dia tão preenchido da alegria e de emoção, o Padre Américo veio dormir a Paço de Sousa. Daqui partiu, na manhã do dia seguinte, 13 de julho, para Viana do Castelo, para falar sobre a Casa do Gaiato dos Açores com o Bispo de Angra, D. Manuel Afonso de Carvalho, que se encontrava na sua terra natal, em férias. Daí seguiu, mais a sul, para reunir, em Coimbra, com o senhor D. Ernesto Sena de Oliveira, Bispo daquela diocese, sobre a situação da Casa de Miranda do Corvo. Daqui regressou, pela tarde do dia 14, a Paço de Sousa, quando pouco depois de passar Valongo o carro, em que seguia, se despista e o Padre Américo fica gravemente ferido. Transportado, de imediato, mercê da gravidade da situação, para o Hospital de Santo António, no Porto, ali faleceu no dia 16 de julho de 1956.

4. Estes são os traços terrenos, os caminhos humanos e os desafios de missão do Padre Américo Monteiro de Aguiar. Neles se percebe o amor que Deus lhe tinha e o amor que Deus lhe confiou para repartir e multiplicar por todos nós e muito particularmente pelos pobres, pelos rapazes da rua, pelos doentes sem ninguém, pelos reclusos, pelos sem-casa e pela sociedade, em quem sempre encontrou acolhimento e compreensão. Quem esquece o seu grito de emoção e de gratidão diante da nossa cidade: “Porto, Porto, quão tarde te conheci e te amei!”

Não sabemos, também, quantas barreiras teve de vencer em burocracias desnecessárias, em lentidão de processos, em retardamento de respostas, em insucessos de soluções. O Padre Américo não era um homem de lamentos! Era um profeta e um discípulo que se deixava conduzir por Deus e pelos pobres. Quando nos aproximamos de Deus e dos pobres o caminho só pode ser o das bem-aventuranças, que nos leva sempre mais longe e nos dá força para praticarmos as obras de misericórdia com alegria!

Nada o demovia. Havia nele uma força interior que o impelia a agir. Era o amor de Jesus Cristo que o chamava a segui-l’O e o enviava a servir os pobres.

A estátua que a cidade lhe ergueu numa das suas praças mais nobres do Porto é uma presença que assinala o amor e a devoção da cidade pelo Padre Américo e afirma o elevado sentido da homenagem de todos os portuenses.

5. A Igreja tem consciência da responsabilidade que lhe incumbe de merecer e continuar a Obra da Rua, nas suas diferentes valências e nos seus mais variados lugares. Só o pode fazer através dos Padres da Rua, assim gostava o Padre Américo de designar os jovens sacerdotes de então que, pouco a pouco, a ele se juntaram. Aos Padres da Rua de hoje e do futuro pertence continuar o carisma fundador herdado do Padre Américo e adequar a sua Obra aos desafios e necessidades de cada tempo e de cada lugar.

Quero aqui deixar uma palavra de gratidão a todos os sacerdotes, muitos deles já partiram ao encontro de Deus, que abraçaram o crisma do Padre Américo e continuam a sua Obra por entre dificuldades, incompreensões e provações. Estendo esta gratidão às mães das casas e a todos os beneméritos da Obra da Rua, e tantos eles são!

Imploro de Deus luz e fortaleza para sabermos trazer o carisma do Padre Américo para este tempo com a criatividade pedagógica que o caracterizou, com a ousadia profética com que o soube implementar no seu tempo e com o sentido de contemporaneidade evangélica com que o fazia.

Sabemos que a hora que vivemos, marcada por circunstâncias e acontecimentos que toldam o horizonte de esperança do mundo contemporâneo, exigem da Igreja que não se limite a continuar o que recebeu em herança mas saiba inspirar novos caminhos para dar respostas adequadas aos problemas de cada época da história.

Há tantas ruas das nossas cidades ainda não andadas e tantos pobres que ninguém ainda encontrou noa caminhos da vida. Precisamos da sabedoria do Padre Américo para aí chegar e do seu olhar perspicaz para ver os que jazem pelas veredas da Humanidade magoados pelo medo, pela velhice abandonada, pelo desemprego, pela toxicodependência, pelo abandono escolar, pela doença ou pela violência.

O mundo melhor que sonhamos exige esta presença actuante dos profetas e merece esta acção interventiva da Igreja. Uma Igreja que quer ir ao encontro dos que se perdem diariamente em dramas humanos e tragédias sociais sem ninguém atento ou por perto.

Que Deus vos abençoe, caros Padres e a todos vós membros das diversas Casas da Obra da Rua! Que Deus nos ilumine a todos nós para que cada um, ao seu nível e segundo a sua responsabilidade, saiba continuar, consolidar e desenvolver a Obra da Rua e o carisma que do Padre Américo recebemos!

Continuemos a rezar e a trabalhar pela canonização do Padre Américo, para que a sua vida e o seu testemunho possam ser apresentados pela Igreja ao mundo como verdadeiro exemplo de santidade neste Ano santo do Jubileu da Misericórdia, que o Papa Francisco nos convida a viver!

Igreja da Santíssima Trindade, 16 de julho, festa de Nossa Senhora do Carmo, de 2016

António, Bispo do Porto

 
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