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Corpo de Deus 2009 PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homílias 2009

Sobretudo à luz de Cristo, a nossa corporeidade é o nosso ser para os outros

À solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo chamou-se em Portugal “Corpo de Deus”, resumindo-lhe logo o significado mais alto.
Na verdade, de Deus se trata, como Ele a si mesmo se tratou em Cristo, com tão absoluto auto-desprendimento em nosso favor, com tão grande entrega por nós e a nós, em dádiva total.
Precisamente assim, como O guardamos na Santíssima Eucaristia. Nela recebemos a Deus e O acolhemos na sua humildade espantosa, em tão inaudito dom de si.
E a esta luz imensa poderemos compreender melhor o que seja um corpo – o Corpo de Deus – e o que havemos de ser nós também, na nossa dimensão corporal. Detenhamo-nos hoje neste ponto, tão grande se revela a oportunidade do tema e da lição.

A frase chave é a que ouvimos no Evangelho: “Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: ‘Tomai: isto é o meu corpo’”.
Assim o disse Cristo, como o repetimos em cada Eucaristia, memória viva do que então nos foi oferecido. E sabemos pela fé – que é a maneira mais certeira de saber alguma coisa – que, no seu corpo, é Jesus mesmo quem se oferece. Não é algo seu, mesmo que excelso: é Ele próprio, inteiramente assim.
Nunca havemos de imaginar Deus, o que seria impossível, pois está antes, depois e acima de qualquer pensamento limitado. E porque sabemos que Ele próprio se auto-manifestou em Cristo, Palavra em que se comunica e figura em que se apresenta. Manifestou-se em Cristo, corpo vivo nascido da Virgem Maria: menino, adolescente, jovem e adulto, página a página dos Evangelhos, em cada choro ou sorriso, em cada frase ou silêncio, em cada oração ou brado, em cada baga de suor ou sangue. Assim é Deus, no corpo vivo de Jesus Cristo.
Há muito tempo, como ouvimos de Moisés, o sangue aspergido dos novilhos, lembrava a aliança entre Deus e o seu povo. Agora é o próprio sangue de Cristo, “derramado pela multidão dos homens”, que sela a aliança em que vivemos. No tempo antigo, recordava-nos a Epístola aos Hebreus, derramou-se o sangue de cabritos e novilhos, para purificar o povo, legal e exteriormente ainda. Agora é o sangue de Cristo que “purifica a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!”.
Compreendamos então a “lógica” do verdadeiro amor, pois é dela que se trata. Quem ama aproxima-se do objecto do seu amor, em dom total de si mesmo e vinculação perpétua ao outro. Por isso “incarna” na carne de quem ama; por isso se “corporiza” em atitudes concretas de dedicação provada. Assim fez Deus em Cristo, relacionando-se totalmente com a nossa humanidade, que tomou como sua; assim se abeirou de nós, num corpo em que se ofereceu e nos fez seus. Para sempre, como “herança eterna prometida”, na expressão da mesma Epístola. 
- Excessos de amor autêntico e divino, que nos “definem” Deus como nunca O conseguiríamos imaginar! Definem realmente, porque, estando além de qualquer tamanho, se fez pequeníssimo e limitado para vir ao encontro das nossas inúmeras limitações e as alargar por dentro, na única amplidão do seu infinito e tão comprovado amor, pessoa a pessoa, caso a caso. Poderemos reflectir a partir daqui; nunca o poderíamos calcular, sem a revelação divina que Jesus é e nos patenteia.

Continuemos a espantar-nos com a realidade, caríssimos irmãos e irmãs; não nos habituemos a ela, pois é ela mesma que nos vai habituando a si: a hóstia consagrada que adoramos, é Deus, é o Corpo de Deus. Concluiu em sacramento e sinal vivo do seu amor a longa caminhada em que nos procurou e procura, revelando que a sua essência é misericórdia.
Do ventre puríssimo da Virgem Santa Maria, o corpo de Cristo nasceu e cresceu, como os Evangelhos o noticiam: desdobrou-se em palavras e gestos de salvação de corpos e almas, em três anos de incansável missão. Foi embalado por sua Mãe e chegou a ser ungido e perfumado depois; mas sofreu todas as vergastadas do ódio, todos os espinhos da coroa e todos os cravos da cruz, sendo sepultado por fim…
Por fim, ou antes por começo. No começo novíssimo em que apareceu ao terceiro dia, na corporização ressuscitada que O faz continuar connosco agora, aqui e em todas as igrejas do mundo; também em todos os corpos que riem ou choram, para nos esperar nos outros e ser estimado e servido em cada um. Também para ser pão e alimento nosso no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, cumprindo principalmente deste modo a promessa feita: “Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos”.
É assim, irmãos e irmãs, e muito mais do que assim, o Corpo de Cristo, Corpo de Deus connosco: proximidade total, coexistência completa e companhia eterna. Todo o percurso foi seu, pelo áspero caminho que lhe abrimos; não é demais que O acolhamos agora, em acção de graças que também nos comprometa a nós, para que, feitos um com Ele, O deixemos chegar por nós aos outros, a todos e a cada um dos outros.

Na verdade é isto mesmo o nosso corpo: sobretudo à luz de Cristo, a nossa corporeidade é o nosso ser para os outros. E nada menos do que isto, para não definharmos, nem gastarmos sem ganho próprio e alheio a imensa possibilidade der ser e conviver que transportamos em nós. Como toda a realidade, a dimensão corporal de cada um ou se torna dom ou enquista e morre.
Há muito que nos atrai sobre todas a magnífica beleza do Crucificado. É o Crucificado que ressuscita, mantendo as marcas da crucifixão, pois todo o esplendor lhe realça o amor com que se entregou a nós e por nós, por cada espinho, por cada cravo, pelo coração aberto. – Como refulgem também as rugas dos que envelheceram na caridade de Cristo, única beleza que perdura! – Como irradia a serenidade de quem espera na dor e para além da dor, dando mais esperança aos outros do que auto-comiseração a si mesmo! – Como rebrilham os mil cansaços generosos, as mãos gastas de tanto darem, os trajes comuns dos que se resumiram na túnica inconsútil que Cristo nos deixou no Gólgota!
Tudo sinais do corpo ressuscitado de Cristo, que os associa a si, na caridade que o seu Espírito derrama. Esses verdadeiramente O comungam no Santíssimo Sacramento do seu Corpo e Sangue; esses realmente O levam na procissão dos seus corpos e gestos generosos, sacramentos vivos dum eterno amor.
Pelo contrário, amados irmãos e irmãs, muito pelo contrário, que tristeza prevista em tantos corpos que se gastam antecipadamente em belezas exteriores e egoístas; que se esbanjam em aparências fugazes de mil estéticas vazias, tão repetitivas e monótonas…
Tudo, absolutamente tudo, definha e seca, ainda antes de tempo, quando não corporiza a caridade. A caridade oferece-se em alimento de todas as circunstâncias e urgências; dá-se na generosidade duma só Cruz, esplende no fulgor dos que corporizam os sentimentos de Cristo. Inversamente, o egoísmo, latente ou induzido em superficialíssimas feiras de vaidades, reduz os corpos a aparências fugazes, esvazia-os do seu significado relacional e adianta-lhes as cinzas garantidas.

“Corpo de Deus”, irmãos e irmãs, é o que temos hoje, realmente oferecido na dádiva total de Cristo. Comungando-o devotamente, com Cristo o havemos de ser, para as mil indigências do corpo e da alma do mundo. Deste nosso mundo nas suas actuais circunstâncias, de que nos abeiraremos na procissão permanente dos gestos partilhados e oferecidos.

Porto, Igreja da Santíssima Trindade, 11 de Junho de 2009
+ Manuel Clemente, Bispo do Porto

Sobretudo à luz de Cristo, a nossa corporeidade é o nosso ser para os outros

 

À solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo chamou-se em Portugal “Corpo de Deus”, resumindo-lhe logo o significado mais alto.
Na verdade, de Deus se trata, como Ele a si mesmo se tratou em Cristo, com tão absoluto auto-desprendimento em nosso favor, com tão grande entrega por nós e a nós, em dádiva total.
Precisamente assim, como O guardamos na Santíssima Eucaristia. Nela recebemos a Deus e O acolhemos na sua humildade espantosa, em tão inaudito dom de si.
E a esta luz imensa poderemos compreender melhor o que seja um corpo – o Corpo de Deus – e o que havemos de ser nós também, na nossa dimensão corporal. Detenhamo-nos hoje neste ponto, tão grande se revela a oportunidade do tema e da lição.

A frase chave é a que ouvimos no Evangelho: “Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, recitou a bênção e partiu-o, deu-o aos discípulos e disse: ‘Tomai: isto é o meu corpo’”.
Assim o disse Cristo, como o repetimos em cada Eucaristia, memória viva do que então nos foi oferecido. E sabemos pela fé – que é a maneira mais certeira de saber alguma coisa – que, no seu corpo, é Jesus mesmo quem se oferece. Não é algo seu, mesmo que excelso: é Ele próprio, inteiramente assim.
Nunca havemos de imaginar Deus, o que seria impossível, pois está antes, depois e acima de qualquer pensamento limitado. E porque sabemos que Ele próprio se auto-manifestou em Cristo, Palavra em que se comunica e figura em que se apresenta. Manifestou-se em Cristo, corpo vivo nascido da Virgem Maria: menino, adolescente, jovem e adulto, página a página dos Evangelhos, em cada choro ou sorriso, em cada frase ou silêncio, em cada oração ou brado, em cada baga de suor ou sangue. Assim é Deus, no corpo vivo de Jesus Cristo.
Há muito tempo, como ouvimos de Moisés, o sangue aspergido dos novilhos, lembrava a aliança entre Deus e o seu povo. Agora é o próprio sangue de Cristo, “derramado pela multidão dos homens”, que sela a aliança em que vivemos. No tempo antigo, recordava-nos a Epístola aos Hebreus, derramou-se o sangue de cabritos e novilhos, para purificar o povo, legal e exteriormente ainda. Agora é o sangue de Cristo que “purifica a nossa consciência das obras mortas, para servirmos ao Deus vivo!”.
Compreendamos então a “lógica” do verdadeiro amor, pois é dela que se trata. Quem ama aproxima-se do objecto do seu amor, em dom total de si mesmo e vinculação perpétua ao outro. Por isso “incarna” na carne de quem ama; por isso se “corporiza” em atitudes concretas de dedicação provada. Assim fez Deus em Cristo, relacionando-se totalmente com a nossa humanidade, que tomou como sua; assim se abeirou de nós, num corpo em que se ofereceu e nos fez seus. Para sempre, como “herança eterna prometida”, na expressão da mesma Epístola.  
- Excessos de amor autêntico e divino, que nos “definem” Deus como nunca O conseguiríamos imaginar! Definem realmente, porque, estando além de qualquer tamanho, se fez pequeníssimo e limitado para vir ao encontro das nossas inúmeras limitações e as alargar por dentro, na única amplidão do seu infinito e tão comprovado amor, pessoa a pessoa, caso a caso. Poderemos reflectir a partir daqui; nunca o poderíamos calcular, sem a revelação divina que Jesus é e nos patenteia.

Continuemos a espantar-nos com a realidade, caríssimos irmãos e irmãs; não nos habituemos a ela, pois é ela mesma que nos vai habituando a si: a hóstia consagrada que adoramos, é Deus, é o Corpo de Deus. Concluiu em sacramento e sinal vivo do seu amor a longa caminhada em que nos procurou e procura, revelando que a sua essência é misericórdia.
Do ventre puríssimo da Virgem Santa Maria, o corpo de Cristo nasceu e cresceu, como os Evangelhos o noticiam: desdobrou-se em palavras e gestos de salvação de corpos e almas, em três anos de incansável missão. Foi embalado por sua Mãe e chegou a ser ungido e perfumado depois; mas sofreu todas as vergastadas do ódio, todos os espinhos da coroa e todos os cravos da cruz, sendo sepultado por fim…
Por fim, ou antes por começo. No começo novíssimo em que apareceu ao terceiro dia, na corporização ressuscitada que O faz continuar connosco agora, aqui e em todas as igrejas do mundo; também em todos os corpos que riem ou choram, para nos esperar nos outros e ser estimado e servido em cada um. Também para ser pão e alimento nosso no Santíssimo Sacramento da Eucaristia, cumprindo principalmente deste modo a promessa feita: “Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos”.
É assim, irmãos e irmãs, e muito mais do que assim, o Corpo de Cristo, Corpo de Deus connosco: proximidade total, coexistência completa e companhia eterna. Todo o percurso foi seu, pelo áspero caminho que lhe abrimos; não é demais que O acolhamos agora, em acção de graças que também nos comprometa a nós, para que, feitos um com Ele, O deixemos chegar por nós aos outros, a todos e a cada um dos outros.

Na verdade é isto mesmo o nosso corpo: sobretudo à luz de Cristo, a nossa corporeidade é o nosso ser para os outros. E nada menos do que isto, para não definharmos, nem gastarmos sem ganho próprio e alheio a imensa possibilidade der ser e conviver que transportamos em nós. Como toda a realidade, a dimensão corporal de cada um ou se torna dom ou enquista e morre.
Há muito que nos atrai sobre todas a magnífica beleza do Crucificado. É o Crucificado que ressuscita, mantendo as marcas da crucifixão, pois todo o esplendor lhe realça o amor com que se entregou a nós e por nós, por cada espinho, por cada cravo, pelo coração aberto. – Como refulgem também as rugas dos que envelheceram na caridade de Cristo, única beleza que perdura! – Como irradia a serenidade de quem espera na dor e para além da dor, dando mais esperança aos outros do que auto-comiseração a si mesmo! – Como rebrilham os mil cansaços generosos, as mãos gastas de tanto darem, os trajes comuns dos que se resumiram na túnica inconsútil que Cristo nos deixou no Gólgota!
Tudo sinais do corpo ressuscitado de Cristo, que os associa a si, na caridade que o seu Espírito derrama. Esses verdadeiramente O comungam no Santíssimo Sacramento do seu Corpo e Sangue; esses realmente O levam na procissão dos seus corpos e gestos generosos, sacramentos vivos dum eterno amor.
Pelo contrário, amados irmãos e irmãs, muito pelo contrário, que tristeza prevista em tantos corpos que se gastam antecipadamente em belezas exteriores e egoístas; que se esbanjam em aparências fugazes de mil estéticas vazias, tão repetitivas e monótonas…
Tudo, absolutamente tudo, definha e seca, ainda antes de tempo, quando não corporiza a caridade. A caridade oferece-se em alimento de todas as circunstâncias e urgências; dá-se na generosidade duma só Cruz, esplende no fulgor dos que corporizam os sentimentos de Cristo. Inversamente, o egoísmo, latente ou induzido em superficialíssimas feiras de vaidades, reduz os corpos a aparências fugazes, esvazia-os do seu significado relacional e adianta-lhes as cinzas garantidas.

“Corpo de Deus”, irmãos e irmãs, é o que temos hoje, realmente oferecido na dádiva total de Cristo. Comungando-o devotamente, com Cristo o havemos de ser, para as mil indigências do corpo e da alma do mundo. Deste nosso mundo nas suas actuais circunstâncias, de que nos abeiraremos na procissão permanente dos gestos partilhados e oferecidos.

 

Porto, Igreja da Santíssima Trindade, 11 de Junho de 2009
+ Manuel Clemente, Bispo do Porto
 
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