Faixa publicitária
Missa Vespertina da Ceia do Senhor 2009 PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homílias 2009

A Ceia do Senhor, celebração do seu sacrifício como “entrega” por nós ao Pai, constitui o cerne da tradição cristã, significando esta a recepção e a transmissão do testemunho primordial. Ouvimo-lo a S. Paulo: “Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: o Senhor Jesus […] tomou o pão e, dando graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu Corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim’. Do mesmo modo […] tomou o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim’”.
Tomando esta última frase, podemos resumir a vida da Igreja na recordação activa do que Jesus disse e fez, tudo resumido como “entrega”. Por isso Paulo acrescentava. “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que Ele venha”. Como se disséssemos: de há dois mil anos para cá, não fazemos outra coisa, enquanto cristãos, senão acolher Jesus na sua entrega e, comungando-a em conversão crescente, entregarmo-nos também com Ele ao Pai e ao mundo, para que nada fique fora deste sacrifício e ceia; para que toda a aventura humana e cósmica se possa finalmente interpretar e consumar no mesmo movimento e caridade. Então, a sua “vinda” se concluirá, como presença reconhecida e significado total das coisas.
Nestes dias santificados, tudo é lembrando por palavras e gestos sacramentais. Palavras e gestos “sacramentais”, porque nos comunicam, de facto, o que lembram e representam. Cada momento final de Cristo quer finalizar-nos também a nós, em sentido cabal. Cada palavra de Cristo, cada reacção dos seus circunstantes “daquele tempo”, continuada nos que o somos agora, tudo condensado naquela Ceia, a que podemos chamar realmente última. Ultima-nos também a nós, que enquanto não nos alimentássemos de Cristo teríamos inevitavelmente fome. Estamos aqui porque o sabemos já: a totalidade de Cristo é-nos sacramentalmente oferecida. Estamos aqui, para que a nossa comunhão com Ele, tão agradecida e piedosa como convertida e responsável, cresça e se projecte no mundo e para a salvação do mundo, em autêntica mesa comum.

Sabemo-lo bem, ou bem o vamos sabendo... Mas soube-o Deus primeiro, que nos criou para si e nos faz seus filhos, fazendo-nos participar pelo Espírito na vida do seu Filho único, Jesus Cristo. O realismo eucarístico revela-se exactamente aqui, na admirável coincidência que vão tendo com os sentimentos e as práticas de Cristo todos aqueles e aquelas que, recebendo-O piedosamente, de algum modo O “reproduzem” em todos os aspectos das suas vidas e empenhamentos.
É um caminho certo e sabido, porque verificado nos Santos, qual catálogo vivo da caridade de Cristo, como se realizou em gente tão diversa no tempo e na mentalidade e que atingiu a mesma essencialidade que celebramos: receberam a “entrega” de Cristo, sacrifício e ceia, e participaram dela para o bem de todos.
Sem sairmos da nossa Pátria e lembrando algumas beatificações mais recentes e uma canonização próxima, todas eucaristicamente referenciadas, que admiráveis foram os Pastorinhos de Fátima, que da Eucaristia receberam uma constante “entrega” pela conversão dos pecadores; ou Alexandrina de Balasar, que se resumiu em alimento eucarístico e no incansável atendimento de quantos lhe pediam oração e conselho; ou Nun’Álvares, cuja constante devoção à Santa Missa lhe revelou que os primeiros são os últimos e fez passar de grande senhor do reino ao mais humilde e esmoler dos frades.
O Cristianismo não é um “moralismo” seco, qual conjunto de regras de vida esforçada, que quase valessem por si mesmas. Incluindo certamente tudo o que a humanidade foi apurando de razoável e oportuno para o comportamento pessoal e a boa convivência social, preenche-o com a vida de Cristo, que vai muito além da “conta, peso e medida” em que ficaríamos sem ela. “Amar como Cristo nos amou” é a verdadeira moral cristã, recebendo do Sacramento da “entrega” de Cristo a única força que a faz possível: a divina caridade.
Sim, amados irmãos e irmãs, a Eucaristia não “compõe” as nossas vidas, qual mera coloração religiosa do que vá sucedendo. Nem marca apenas, aos Domingos e Dias Santos, uma agenda praticante, aliás indispensável. Ela é o ponto central e determinante da nossa vida inteira. Mais ainda: ela é a vida do cristão e, pelo cristão, do mundo. É a vida de Cristo, no Qual tudo ganha sentido como entrega ao Pai, levando consigo a criação inteira, na força do Espírito.
De Cristo para o Pai no amor do Espírito, é o único caminho – como sacrifício e ceia – em que nos encontra(re)mos todos. Creio passar por aqui o próprio facto de mesmo escritores, artistas e compositores não praticantes e até não católicos encontrarem nos motivos eucarísticos inspiração, palavras e formas para as suas obras. De modo mais ou menos ortodoxo, vislumbram um encontro total…
O que não tivesse sentido eucarístico nem seria de Cristo, nem seria de cristãos autênticos. Com toda a força da palavra, seria “insignificante” e mesmo absoluta perda de tempo.

Mas, sendo tão axial e definitiva a Eucaristia, convém perguntar, amados irmãos e irmãs:   – Que centralidade tem a Santa Missa, mesmo nos Domingos dos chamados “praticantes”? – Como a preparamos pessoalmente, nas famílias e nas comunidades? – Como a prolongamos em acção de graças e recordação viva? – Como guardamos e adoramos a Reserva Eucarística nos nossos templos? – E ainda, na própria celebração, com que atenção participamos, em que condições nos abeiramos da Comunhão, como nos mantemos depois, em louvor agradecido?
A estas perguntas que devemos fazer-nos diante da divina entrega que hoje tão especialmente celebramos, e que todas se resumem afinal na seriedade e verdade da nossa relação com Cristo, juntam-se as necessárias consequências, para que a Ceia do Senhor se alargue ao mundo. As atitudes dos santos já lembrados, como da generalidade deles, do passado e do presente, evidenciaram bem o que a Eucaristia faz num coração crente, com a intensidade e a urgência com que serviram o próximo, ou melhor, com que se aproximaram de todos.
Ficou-nos do Evangelho ouvido, quer o espanto de Pedro perante um Senhor que se dispunha a lavar-lhe os pés, quer a pergunta de Jesus, feita num plural que certamente nos inclui: “ - Compreendeis o que vos fiz?”. Responderemos imediatamente que sim… Mas talvez levemos uma vida inteira, por longa que seja, a passarmos da compreensão à prática cabal, comungando de Jesus a verdade da humildade e do serviço. Assim é Deus, que reina servindo; assim são os outros, que servidos nos salvam.
Por isso, amados irmãos e irmãs, a Ceia do Senhor há-de abeirar-nos directamente das acrescidas necessidades dos nossos semelhantes, especialmente dos que mais atingidos forem por velhas e novas pobrezas e precariedades, de vida e de esperança. Que, pessoalmente e nas instituições caritativas, estejamos diante dos outros “como quem serve”. E demos graças a Deus Pai por assim nos associar à Ceia de Cristo no vínculo do Espírito, para chegarmos a todos. Agradeçamos, irmãos e irmãs, porque participar na caridade de Cristo é festejar a vida. Por isso mesmo a Eucaristia, recebida e partilhada como comunhão de vida e serviço, é sempre sacramento de alegria e de paz.

Sé do Porto, 9 de Abril de 2009
+ Manuel Clemente, Bispo do Porto

 
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Quer receber as nossas novidades no seu e-mail? Subscreva a nossa Newsletter especificando o seu endereço de e-mail:

Missa da Peregrinação diocesana do Porto de 9 de Setembro 2017

Angelus TV

D. António Maria Bessa Taipa em entrevista à Voz Portucalense
2017-10-11 16:12:03
Powerpoint + PDF
2017-10-09 11:26:12
Recursos gráficos
2017-09-19 13:45:08
Formato ICS (Google, Outlook, iCal, ...)
2017-08-21 15:07:09
Faixa publicitária
Faixa publicitária


© Diocese do Porto, Todos os Direitos Reservados.