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Congresso Europeu das Vocações PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homílias 2008

Na abertura do nosso Congresso celebramos a Festa de São Tomé Apóstolo e ouvimos atentamente o Evangelho que lhe diz respeito. Não podia vir mais a propósito, por tocar num ponto essencial da problemática vocacional hodierna: a comunidade, lugar da vocação.
Não é forçar a parábola inspiradora desta reunião internacional. Na verdade, o “bom samaritano” não resume à sua aproximação pessoal a salvação daquele homem que encontrara em tristíssimo estado. Alarga a sua acção ao contexto comunitário, significado numa “estalagem” onde poderia ser “bem tratado” (cf. Lc 10, 34-35). E não foi difícil à nossa tradição ver nessa estalagem a própria imagem da Igreja.
Mas é no Evangelho desta Missa de S. Tomé que a alusão comunitária se torna mais forte e mesmo determinante para qualquer percurso cristão, vocacional também. Sabemos como Tomé, um dos Doze, “não estava com eles” (Jo 20, 24) quando o Ressuscitado lhes aparecera “naquele dia, o primeiro da semana”. Sabemos que não acreditara em tal aparição e presença, pondo mesmo condições para a admitir, condições que nos podem parecer demasiado concretas e materiais: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado…” 
Reparemos pois: tratava-se de alguém que conhecera Jesus de perto; de alguém que ouvira o testemunho dos outros, dito certamente com a força “querigmática” da primeira experiência pascal. E, no entanto, não fora suficiente…
Mas eis que “oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles” (Jo 20, 26). Então verá Jesus, experimentará a absoluta paz que só na ressurreição de Cristo desponta e soltará, por fim, a mais larga das profissões de fé: “Meu Senhor e meu Deus!”.    

No actual contexto social do nosso Continente a vida é sobremaneira individualizada e dispersa. Criam-se e estreitam-se muitas redes de “comunicação”, mas os media não unem realmente os seus utilizadores de modo presencial e comprometido. Mais facilmente os informam do que os formam, mais facilmente os constituem em espectadores do que em participantes, mais facilmente os divertem do que os levam à reflexão aprofundada; ou os chocam e espantam, pela “dramatização” constante de factos e figuras, em contraste e oposição. Mobilizam episodicamente, para tudo se esquecer de seguida, na precipitação dos estímulos para ganhar audiência.
Creio que o “mal” não está propriamente nos media, mas em quem faça deles uma comunidade de substituição e por isso virtual, não real. Os media, em si mesmo, são um espantoso meio de cosmovisão e partilha de conhecimentos e sugestões. Neste sentido têm as virtualidades e os riscos da tão propalada globalização. Permitem uma consciência mais universal das coisas, mas não nos podem dispensar de atender à realidade próxima e concreta, nem alhear da convivência precisa e solidária, onde o todo se faz parte e parte pelo todo. Onde a “humanidade”, minha e do outro, se realiza, indispensavelmente, na relação, na partilha e no compromisso.
Voltando à parábola inspiradora deste Congresso, grandes ideias e “agendas” teriam os que passaram por aquele pobre homem que ali jazia meio morto… Finalmente, um samaritano, que também teria ideias e agendas, soube deter-se e levantá-lo, levantando-se a si mesmo como exemplo ímpar de humanidade e relação. Exemplo universal, global, porque localizado e concreto.

O que se diz da sociedade diga-se também da Igreja e da dimensão vocacional, constitutiva da sua missão. Existe a Igreja como vocação divina à santidade, que é comunhão absoluta com Deus e com os outros. Na expressiva passagem que ouvimos da Epistola aos Efésios, é precisamente de “família” que se fala, com a forte carga de relação e proximidade que tal palavra evoca: “Irmãos: Já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus…” (Ef 2, 19).
Assim traduzida tal realidade novíssima, oferecida na ressurreição de Cristo - como humanidade resgatada para a comunhão com Deus e com os outros, naquela “paz” que o mesmo Cristo derrama pelo Espírito -, a Igreja é no mundo uma fermentação permanente de unidade e comunhão. A constituição dogmática sobre a Igreja, do último Concílio ecuménico, encontrou as palavras mais adequadas e estimulantes para definir essa verdade.
Fala-nos o Concílio “da Igreja, que em Cristo, é como que o sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o genro humano” (Lumen Gentium, nº 1). E não se esquece de aludir às modernas possibilidades de comunicação, que tanto cresceriam nas quatro décadas seguintes: “As condições deste tempo tornam maior a urgência deste dever da Igreja a fim de que todos os homens, hoje mais intimamente unidos por toda a espécie de vínculos sociais, técnicos e culturais, alcancem a unidade total em Cristo” (ibidem).
Importa assim que, como Tomé, também cada um dos cristãos faça na comunidade a melhor experiência do Ressuscitado. Dessa experiência fundamental renascerá como “apóstolo”, irradiando vida pascal, deste ou daquele modo específico, como carisma e ministério.                   

“Samaritanos da esperança para uma Europa com futuro humano e cristão”, assim nos queremos todos, especialmente na dimensão vocacional. Sejamos então intermediários activos entre cada um que encontrarmos e a “estalagem” em que se fortaleça e relance. Também porque um futuro humano significa necessariamente comunidade e convivência. Sobretudo porque futuro cristão significa vida pascal de comunhão e paz, celebração e partilha.
A Tomé ninguém mais o deteria, no testemunho de Cristo, porventura até à Índia. Mas foi na comunidade pascal de Jerusalém que se reencontrou naquele dia, como vocação e destino. Sejamos nós suficientemente criativos para acolher, integrar e acompanhar eclesialmente cada adolescente, jovem ou adulto e a experiência cristã redundará em múltiplas vocações.  

+ Manuel Clemente, Bispo do Porto

 
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