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Homilia - Solenidade da Ascensão do Senhor PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2010

44º DIA MUNDIAL DAS COMUNICAÇÕES SOCIAIS

- Para alargar a novidade ao futuro!

Amados irmãos e irmãs, na ascensão da vida que temos em Cristo:

Com renovada alegria, celebremos a Ascensão do Senhor e apercebamo-nos nela, pois, como rezou a oração colecta, “a ascensão de Cristo é a nossa esperança: tendo-nos precedido na glória como nossa Cabeça, para aí nos chama como membros do seu Corpo!”.

Assim nos devemos rever e tomar, os baptizados. Recebemos o Espírito de Cristo, para que o caminho pascal seja nosso também. Do Pai veio Cristo até nós, para nos levar consigo para o Pai. Nisto mesmo revelou a misericórdia de Deus Pai, que, sendo nosso constante Criador, não se desinteressou nem desinteressa de nenhum de nós, antes nos procurou e procura em Jesus, que é a sua Palavra incarnada, o seu apelo tão próximo.

 

 

Nisto nos revela Jesus o seu amor também, inteiramente partilhado com o Pai, no mesmo objectivo de nos buscar e consigo nos levar de regresso, em autêntica subida e ascensão. Com Cristo, “subimos” para o Pai, no impulso do Espírito, sendo esta agora a nossa verdadeira vida, a única realização das aspirações essenciais que nos definem e só Deus poderá preencher.

E, em tudo e sempre, Cristo é o caminho para o Pai: “Ninguém vai ao Pai senão por mim” (Jo 14, 6), declarou Ele. – E o que significará tal asserção? Significará decerto que a ascensão para o Pai só acontece em cada um de nós se seguirmos os passos de Cristo, um após outro e até ao fim.

Estamos em Maio, mês especialmente dedicado a Maria, Virgem Mãe, e à contemplação orante dos mistérios do Rosário. – Belo e utilíssimo exercício é este, pois vamos seguindo com Ela os passos de Jesus, descendo e subindo, ou descendo para subir, da Encarnação à Glória. Na verdade, assim o reconheceu e cantou um dos primeiros hinos cristãos: “Ele, que é de condição divina, […] esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo. Tornando-se semelhante aos homens […], rebaixou-se a si mesmo tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudo e lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome…” (Flp 2, 6 ss). Maria acompanhou o caminho de Cristo, de Nazaré à Cruz e da Cruz à Glória, rebrilhando agora na sua gloriosa Assunção.

Isto sabemos, como cristãos. Isto experimentamos e experimentaremos na vida, fazendo-nos pequenos na pequenez do dia a dia, de cada serviço concreto e comezinho que o bem dos outros nos peça, para assim mesmo “subirmos” a escada da glória pelos degraus da humildade e da caridade. Também desse modo “os últimos serão dos primeiros” (Lc 13, 30) e “quem se humilha será exaltado” (Lc 14, 11).

 

Ouvíamos, no final do trecho evangélico, que “enquanto os abençoava, Jesus afastou-se deles e foi elevado ao Céu”. Por seu lado, “os discípulos prostraram-se diante de Jesus, e depois voltaram para Jerusalém com grande alegria”. Daí em diante, “estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus”. É à luz destas frases que me deterei um pouco, para sublinhar nelas a verdadeira vida da Igreja, que quase se pode resumir no dinamismo da Ascensão: a de Cristo e, na força do seu Espírito, a nossa também – e a do mundo connosco, para que tudo se conclua em Deus.

Destrincemos três momentos: a adoração de Cristo, o irradiante regresso à cidade e a fervorosa acção de graças.

Os discípulos prostraram-se diante de Cristo em ascensão. Assim mesmo começamos nós a ser Igreja, amados irmãos e irmãs. Não são apenas o costume ou o ambiente que nos trazem aqui, como tantos outros se reúnem em idêntico culto, mundo fora. É sobretudo e sempre Cristo, constante orientação das nossas vidas, pois nos atrai o olhar e o coração.

Vêmo-Lo em ascensão e assim nos prostramos em seu redor: Filho de Maria, e por isso tão próximo, do Presépio à Cruz; Filho de Deus, sempre mais além, num horizonte infindo de plena realização de tudo e de todos. Diante de Cristo nos prostramos livremente, porque nos tocou uma liberdade novíssima e maior, liberdade de amor e de serviço, como oportunamente a definia São Paulo: “Foi para a liberdade que vós fostes chamados. Só que não deveis deixar que essa liberdade se torne numa ocasião para os vossos apetites carnais. Pelo contrário: pelo amor, fazei-vos servos uns dos outros” (Gl 5, 13).

Voltaram depois para Jerusalém, cheios de alegria. Assim com os primeiros discípulos e assim connosco agora, caríssimos irmãos e irmãs: o que descobrimos de Cristo em ascensão, descobrimo-lo de nós mesmos em missão, outro modo de referir a alegria pascal que de nós necessariamente transborda.

Sabemos bem que, àqueles discípulos, nada e ninguém conseguiu calar, nem em Jerusalém nem onde chegassem. Como sabemos que “Evangelho” se traduz por alegre notícia e “evangelização” por levá-la a todos: famílias, escolas, profissões, hospitais, prisões e seja onde for. Como também sabemos que esta alegria não provém do que nós poderíamos fazer, mas sempre e só do que Cristo nos concedeu e concede: da sua Páscoa, que brilha sobre todas as nossas densas trevas e misérias. Mais uma vez, foi São Paulo um dos primeiros a sabê-lo e a escrevê-lo, pleno de realismo cristão: “… onde aumentou o pecado, superabundou a graça. E deste modo, tal como o pecado reinou pela morte, assim também a graça reina pela justiça até à vida eterna, por Jesus Cristo, Senhor nosso” (Rm 5, 20-21).

- É esta a alegria comunicada à cidade, é esta a evangelização sempre nova, que tanto urge! Daqui saídos ou de qualquer outro templo, à luz da Ascensão de Cristo, saberemos melhor e comunicaremos mais que toda a vida cresce e sobe quando se oferece e serve, persistindo ou recomeçando, com humildade e confiança, diante de Deus e do mundo. – Esta, amados irmãos e irmãs, é a alegria comprovada, esta é a Páscoa que recebemos e com todos partilhamos, em irrecusável missão!

O terceiro momento revela-nos que vida em ascensão é vida em oração, tão fundamental e indispensável. Sabemos que a devemos manter e praticar em qualquer lugar e situação “em espírito e verdade”, como Jesus declarou à Samaritana (cf. Jo 4, 24). Sabemos também que os nossos templos são lugares espirituais, pois neles tudo nos assinala uma presença divina plasticamente traduzida, atingindo por vezes – como nesta belíssima igreja de São João da Foz, tão bem cuidada pelo seu pároco e colaboradores – um magnífico esplendor. Fruindo então do que a arte de todos os tempos nos proporciona, e da “alma” que o Espírito de Cristo sempre nos alarga, mantenhamo-nos como os primeiros discípulos, “bendizendo a Deus”, pois essa é, ainda e sempre, a verdadeira ascensão das nossas vidas.

- E quanto temos de fazer nesse sentido, estimados irmãos e irmãs! Creio até que – em plena Missão 2010, como a estamos a viver na Diocese do Porto – esta dimensão orante da vida eclesial tem de ser cada vez mais activada e promovida. Decerto nos dói ver tantas igrejas fechadas ou vazias, tendo dentro delas os sinais mais expressivos, com a caridade, da presença d’Aquele que responde em absoluto à solidão e às aspirações dos nossos corações transeuntes. Entre esta oferta desapercebida e tanta procura indistinta, faltam os lugares bastantes duma evangelização que inicie na oração propriamente cristã, com os modos antigos e modernos de a praticar pessoal e comunitariamente, pondo os corações em verdadeira ascensão. Aquela referida também por São Paulo, no seguinte passo da Carta aos Colossenses: “Já que fostes ressuscitados com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus. Aspirai às coisas do alto e não às coisas da terra” (Cl 3, 1-2).

Espero empenhadamente pelo dia em que nas nossas igrejas se pratique e ofereça mais oração contemplativa e litúrgica, sempre alimentada pela Palavra de Deus: oração filial, de acolhimento e entrega. Foi também com essa intenção que convidámos a Comunidade de Taizé para estar connosco, como felizmente aconteceu em Fevereiro, no âmbito da Missão 2010, com a participação de tantos jovens e não só. Vejo com muito agrado e acção de graças que, nalgumas comunidades, esse esplêndido acontecimento deu bom fruto, criando-se e mantendo-se vários grupos de oração similar.

O trecho evangélico especificava, como ouvimos, que os discípulos “estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus”. Importantíssima alusão é esta, amados irmãos e irmãs, e de grande urgência também. Urgência no que à qualificação cristã respeita, para não se confundir com o que ainda a não tenha. Há, de facto, uma oração espontânea, que em geral fazemos todos, como criaturas divididas entre desejos e frustrações, ideais e fraquezas, na sorte comum da humanidade que integramos. Essa oração – se assim lhe podemos chamar – fica-se geralmente pela petição, pelas necessidades imediatas. Deus não a rejeita, decerto. Mas também daqui precisamos de ascender, com Cristo e no Espírito de Cristo, à oração filial. Oração que agradeça ao Pai por nos manter vivos e nos dar em cada ocasião a oportunidade de crescer e “subir” na caridade, a única que “nunca acabará” (cf. 1 Cor 13, 8).

 

Isto mesmo viveremos, estimados irmãos e irmãs, e assim ascenderemos, pessoal e comunitariamente. E tudo havemos de fazer “tirando do tesouro coisas novas e velhas”, como exorta um passo evangélico (cf. Mt 13, 52). Como o faz o Papa Bento XVI – de tão recente e inolvidável estada entre nós! – na Mensagem para o presente Dia Mundial das Comunicações Sociais, estimulando em especial os sacerdotes, para alargarem com a actual tecnologia o alegre anúncio da vida em ascensão.

Escreve-nos o Papa, entre outras referências oportunas: “Aos presbíteros é pedida a capacidade de estarem presentes no mundo digital em constante fidelidade à mensagem evangélica, para desempenharem o próprio papel de animadores de comunidades, que hoje se exprimem cada vez mais frequentemente através das muitas ‘vozes’ que surgem no mundo digital, e anunciar o Evangelho recorrendo não só aos media tradicionais, mas também ao contributo da nova geração de audiovisuais […] que representam ocasiões inéditas de diálogo e meios úteis inclusive para a evangelização e a catequese”. E, mais à frente, quanto aos destinatários: “Uma pastoral no mundo digital é chamada a ter em conta também aqueles que não acreditam, caíram no desânimo e cultivam no coração desejos de absoluto e de verdades não caducas, dado que os novos meios permitem entrar em contacto com crentes de todas as religiões, com não-crentes e pessoas de todas as culturas”. Acrescentando, com uma referência bíblica francamente utilizável e muito sugestiva: “Do mesmo modo que o profeta Isaías chegou a imaginar uma casa de oração para todos os povos (cf. Is 56, 7), não se poderá porventura prever que a Internet possa dar espaço – como o ‘pátio dos gentios’ do Templo de Jerusalém – também àqueles para quem Deus é ainda um desconhecido?”.

Assim faremos certamente, e com renovada aplicação e competência, de sacerdotes e leigos. Assim terá de ser, na aldeia global em que cada vez mais vivemos, alargando a Jerusalém dos dias da Ascensão. E considerando que tal implica necessariamente o envolvimento das comunidades cristãs – paroquiais ou outras – quer na proposta quer no acolhimento de quem vier ou voltar.

Por duas razões principais: Porque o anúncio evangélico, mesmo que feito na Internet por um operador individual, testemunha sempre uma vivência comunitária, pois só comunitariamente acontece a plena experiência cristã: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles” (Mt 18, 20). E porque o contacto virtual tem de ganhar presença e rosto no contacto inter-pessoal e comunitário, mais cedo ou mais tarde, mas inevitavelmente. Intensa e pessoal foi a experiência do Ressuscitado, como Paulo a teve a caminho de Damasco, para o passar de perseguidor a apóstolo. Mas ouviu imediatamente a indicação expressa de procurar a comunidade que naquela cidade existia e onde, efectivamente, foi recebido e baptizado (cf. Ac 9, 6 ss).

Correspondendo à vida actual das pessoas que somos, a convivência eclesial torna-se mais inter-comunitária e “em rede”. Também cada comunidade se deve transformar num ponto de emissão e encontro, em inter-ligação com muitas outras, de proposta complementar e diversa geografia.

Não sabemos ao certo onde esta evolução nos levará. Mas, como em tudo na vida, não sabendo bem o quê, o quando ou o como, sabemos com Quem a faremos. É e será com Cristo, Palavra viva e Mensagem eterna que o Pai nos dirige, para em Cristo vivermos a vida do Espírito. Sabemos que esta mensagem ecoa na múltipla expressão dos crentes e das comunidades que integram. Sabemos que aproximará os que a acolherem daqueles ou de outros que a comunicarem. O escopo mantém-se como foi definido por um dos primeiros, falando em nome de todos: “ … o que ouvimos. O que vimos com os nossos olhos, o que contemplámos e as nossas mãos tocaram relativamente ao Verbo da Vidas […], isso vos anunciamos, para que vós estejais também em comunhão connosco” (1 Jo 1, 1 ss).

- Assim foi, assim é e assim será, amados irmãos e irmãs, progredindo na verdade de sempre para alargar a novidade ao futuro!

 

+ Manuel Clemente

Bispo do Porto e Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais

Igreja de São João Baptista da Foz do Douro, 16 de Maio de 2010, Solenidade da Ascensão do Senhor e 44º Dia Mundial das Comunicações Sociais

 
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