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Documentos - Homilias 2010

Homilia

DEDICAÇÃO DA IGREJA CATEDRAL DO PORTO

- Para glória de Deus e serviço do próximo!


Comemoramos um facto, certíssimo facto, ainda que esfumado pela sucessão dos séculos e a indefinição das notícias
. Não bastaria para estarmos aqui, se o que realmente aconteceu – a dedicação desta igreja catedral - não continuasse felizmente agora.


Mas continua, como tudo quanto é de ordem sacramental. Da parte de Deus, continua, como a nova Jerusalém que sempre “desce do céu”. Não podemos divisar o bispo D. Hugo, nem nenhum dos seus imediatos sucessores na “restauração” da linha conhecida dos prelados portucalenses; não ouvimos os sinos nem os cânticos que ressoaram quando finalmente se inaugurou este belíssimo templo… Mas os ritos e os cânticos de hoje são essencialmente os mesmos, como mesma é a finalidade: a glória de Deus e o serviço do próximo, dos outros de quem nos aproximamos pela caridade de Cristo, aqui anunciada e jorrante.

É sabido como esta igreja era também o coração da cidade, mesmo socialmente falando. Realidade própria daqueles tempos em que saber, administração e clericatura eram quase o mesmo. Quando deixou de ser assim - num longo processo, não isento de tensões -, o todo foi-se decompondo em partes distintas, afinal na melhor tradição cristã de “dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21).

Cristãos, clérigos ou leigos, participam hoje na vida da cidade, “nas suas alegrias e esperanças, nas suas tristezas e angústias” (Gaudium et Spes, 1); mas fazem-no enquanto cidadãos entre cidadãos, sem outro título nem regalia. Como Jesus na oficina de Nazaré, como Jesus a pagar tributo a César, como Jesus reconhecendo a autoridade romana, ainda que, com a sua atitude total, a chamasse a bem melhor exercício.

Glória de Deus, ou Deus como “glória”, vida e beleza irradiantes, luz original e originante de toda a claridade do mundo e das vidas. Mais do que o sol quando encandeia, mais do que o céu estrelado, que tanto levanta o olhar e o espírito, a glória de Deus manifesta-se na vida, porque, glosando Santo Ireneu, “a glória de Deus é o homem vivo”. Glória, sobretudo, na vida humano-divina de Jesus Cristo, que tanto nos surpreende no seu mais humilde acontecer e tanto nos supera em elevadíssima fulguração. Nada a subtrai da mais solidária urgência e nada a encadeia na maior sublimação. Sabem-no bem os grandes santos, que ainda assim – que por isso mesmo! – se culpam de faltosos; sofrem-no muito os maiores artistas, por nunca chegarem onde a glória desponta.

Acontece assim porque, no dizer do mesmo Ireneu, “a vida do homem é a visão de Deus”. Na luz da caridade e da arte rebrilha a glória divina, como se concentram em cada pessoa humana, autêntica síntese do mundo envolvente. Mas tudo sucede como apelo para a realização definitiva de todas as coisas em Cristo, onde o próprio Deus se oferece na inevitável realidade humana, concentrada “nas alegrias e nas esperanças, nas tristezas e nas angústias” a que Jesus de Nazaré não se furtou e finalmente transfigurou, em inextinguível luz pascal. A esta glória se dedicou o templo, a esta glória e circulação de luz e de vida se dedica a nossa Igreja diocesana, na catolicidade da Igreja toda.

Permiti-me que particularize em vós, caríssimos professores de Educação Moral e Religiosa Católica, quanto vai dito sobre a nossa dedicação comum à glória divina. Como há dias vos escrevi, a educação contemporânea tem pela frente a inadiável tarefa de analisar, recuperar e recombinar melhor os “escombros” do muito que aconteceu e simbolizou a vida social, cultural e religiosa das gerações anteriores. Tomai-o como tarefa sedutora e criativa, para vós e para os vossos alunos.

Sejam as vossas aulas um espaço aberto ao que eles tragam, para o conjugardes com a tradição evangélica que vós próprios transportais; precisamente a daquele Cristo que disse frases como esta, que bem sabeis e activais: “quando Eu for levantado da terra, atrairei todos a Mim” (Jo 12, 32).

Por isso, também esta catedral dedicada se dirige a uma cruz. Por isso, o sinal da cruz – que, com grande significado cultural, muito bem cabe em qualquer espaço, de pleno direito e não exclusivo -  prolonga-se na vossa dedicação e pedagogia, na encruzilhada humano-divina de todos os itinerários e saberes. Aí mesmo, onde a luz desponta e a glória é salutar.

Glória de Deus e serviço do próximo, glória de Deus no serviço do próximo, assim se resume a missão da Igreja, nas duas hastes da cruz do Gólgota, como na própria configuração deste templo, entre a nave e o transepto. Bem figurados estamos, caríssimos irmãos, para irradiarmos em missão.

Glória e serviço são a alma da Missão 2010, em que continuamos e nos prolongaremos. O serviço que queremos prestar à cidade de todos é precisamente esse de que falávamos, de garantir e alargar pelo Evangelho de Cristo a vida da Igreja e do mundo, da Igreja para o mundo.

Se em Janeiro cantámos o nascimento do Menino Deus, foi para que o novo ano nascesse na vida que o recupera; se em Fevereiro buscámos as “fontes da alegria”, foi para bebermos da água que dura para a vida eterna e nisso mesmo iniciarmos aqueles a quem os poucos anos prometem tanto e garantem tão pouco; o mesmo em Março, ligando mais a paixão do mundo à paixão de Cristo; ou em Abril, testemunhando uma vitória sobre a morte que é muito mais do que o cansado retorno de primaveras breves.

Em Maio, a Mãe de Jesus levou-nos onde está o seu Filho, particularmente a todas as fragilidades que Ele sofre nos outros; em Junho, começámos algo em que temos de insistir, celebrando a santidade verdadeiramente “popular”, que se verifica nas vidas e instituições em que o Espírito de Deus responde às muitas necessidades sentidas. Nesta legítima direcção devemos educar o olhar, próprio e alheio, para o lugar certíssimo da glória de Deus que, relembremos, é o homem vivo.

O Verão dispersou-nos um tanto, mas não esmoreceu certamente a disposição evangelizadora. Esta que em Setembro se redobra, escola a escola, com o especial concurso dos professores e alunos de EMRC. Com o impulso do respectivo Secretariado Diocesano, consolida-se como que um “movimento” escolar cristão, com os seus objectivos e programas, as suas campanhas e momentos simbólicos; com ponto alto no convívio anual de alunos, reunindo muitos milhares deles em jornada inesquecível e, por assim dizer, marcante.

Esperamos vivamente que cada vez se articule mais o que se passa nas escolas e nas aulas de EMRC com as comunidades cristãs em que se localizam. Neste caso, como em vários outros, o cruzamento inter-comunitário e inter-sectorial será pastoralmente decisivo, no respeito e acolhimento mútuos, de especificidades e métodos. Irá mais longe do que o critério excessivamente territorial que herdámos doutras épocas da vida social e eclesial.

Para glória de Deus e serviço do próximo se delineiam também os três meses seguintes. Outubro é “mês missionário” em toda a Igreja, com os novos contornos que a “missão ad gentes” e a “nova evangelização” ganham actualmente, cada vez mais entrecruzados também. A multiplicada oferta do sinal da cruz surpreenderá a muitos, com criatividade grande e juvenil concurso. E a partilha, reflexão e festa que faremos em torno da missão universal e local, irradiará certamente muita glória, porque evidenciará sobretudo muito serviço do Evangelho, dirigido a quem o não conhece ou entretanto o esqueceu.

O calendário de Novembro começa com a solenidade dos Santos e a comemoração dos defuntos; virão depois a solenidade de Cristo Rei do Universo e o Advento. Trata-se dum mês particularmente “escatológico”, na sucessão destes motivos, e assim mesmo nos mobilizaremos missionariamente. Do ponto de vista “cultural”, é importante realçar e oferecer, como perspectiva cristãmente marcada, a realidade da vinda de Cristo, Senhor da história colectiva e de cada existência singular. Nele definitivamente cabem o passado, o presente e o futuro. Preparam-se para tal várias acções, com particular dimensão estética e cultural: para um Novembro que refunde a esperança.

Em Dezembro, a Catequese diocesana terá protagonismo especial, aludindo ao Menino do Presépio, alargado no presépio do mundo, onde Ele se continua a apresentar e a aguardar-nos, como aos pastores e aos magos de outrora, pobres e sábios de sempre. Nele começou o Evangelho, e n’Ele continua: no “eterno Menino de ainda agora”, como lhe chamou um dos nossos clássicos (Manuel Bernardes).

Depois, os primeiros meses de 2011 estão destinados à recolha e à avaliação possíveis do que aconteceu na Missão 2010, de maior indicação para o futuro. Como sempre acontece, o melhor do que se faça é obra do Espírito e o mesmo Espírito nos abrirá o futuro, para glória de Deus e serviço do próximo.

Teremos no próximo Dezembro a ordenação de novos diáconos permanentes, belíssima graça que nos enche de esperança. Esperamos, mais precisamente, que o reforço deste precioso grau do sacramento da Ordem nos traga, entre outras, as seguintes vantagens maiores: 1ª) Que sublinhe a dimensão caritativa do ministério ordenado, servindo em todas as “mesas” que preparam ou desdobram a mesa eucarística. 2ª) Que, por isso mesmo, permita aos padres uma maior disponibilidade para o que lhes é próprio e hoje é particularmente requerido, na figuração sacramental de Cristo sacerdote, cabeça e pastor, pela cuidada presidência da Eucaristia, a dedicada administração da Penitência e o generoso acompanhamento espiritual dos fiéis. 3ª) Que estimule a maior diversificação ministerial da Igreja, até porque a sua condição existencial - na família, na profissão e na sociedade – inclui os diáconos na vida comum dos baptizados, reforçando nestes a convicção de que o serviço é a única atitude legítima de qualquer cristão.


Senhora da Assunção, título e invocação desta catedral!
Convosco nos reunimos hoje, iniciando um novo Ano Pastoral, para glória de Deus e serviço do próximo. Convosco, Mãe da Igreja e fruto pleno da ressurreição de Cristo, nos revemos e projectamos em missão. A Vossa glória é o Vosso serviço tão solícito e materno, para que todos resplandeçamos também, vidas divinizadas em Cristo. A Vós confiamos a Missão, pois em Vós começa a vida de Cristo no mundo. Convosco permanecemos, ainda mais fortes e seguros do que estas naves graníticas o são. O Espírito que sobre Vós desceu opera hoje em nós, Vossos filhos consagrados e enviados. – Senhora da Assunção: ensinai-nos a desfiar na vida todas as contas do rosário que vivestes com Cristo, da anunciação à glória, percurso de Deus no mundo e realização do mundo em Deus!         

+ Manuel Clemente

9 de Setembro de 2010

Anexos:
Fazer download deste arquivo (Homilia.doc)Homilia - D, Manuel Clemente
 DEDICAÇÃO DA IGREJA CATEDRAL DO PORTO - 9 de Setembro 2010
 
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