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Documentos - Homilias 2011

 

Unitrindade: revelação de Deus e salvação do mundo

(esboço da homilia)

 

“Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna”. Nesta rápida frase de Jesus a Nicodemos temos tudo o que importa e excede, para uma vida legitimamente cristã: Deus Pai, o seu Filho enviado e o seu Amor demonstrado. Ainda na esteira pascal, em que tais verdades se consumaram, é bom e muito oportuno celebrarmos Deus Trindade Santíssima, neste Domingo que particularmente O refere.

 

Problema de hoje – e grande problema, na verdade – é sentirmo-nos ou querermo-nos individualmente apenas, sem persistência e desligados. Salvação cristã, como a vamos experimentando por divina graça, é vivermos em Cristo, como quem se recebe do Pai e a Ele se retribui, na circulação plena e irradiante do Espírito. Assim foi ensinado aos primeiros discípulos: “Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim também o que me come viverá por mim” (Jo 6, 57). E sendo uma realidade viva – a de Deus e a nossa em Deus – experimenta-se e testemunha-se na família e na comunidade cristã, pela doação mútua e persistente de todos e cada um, vencendo dissensões e discórdias pela força (re)unificadora do Espírito.

Alguma razão teve a modernidade, ao dizer: “Penso, logo existo” (Descartes); e mesmo a pós-modernidade, ao dizer: “Sinto, logo existo” (Kundera). Mas nós aprendemos de Cristo que só existimos na relação e por isso acrescentamos: “Amo, logo existo”; ou, com Santo Agostinho, “valho aquilo que amo”. Definindo-se amor como relação que perdura, constante saída de si para o outro, regressando a si pelo outro também, em vida unificada porque entregue.

Celebrar a Santíssima Trindade é também reconhecermo-nos a nós, em Deus e a partir de Deus. Do Deus que em Cristo se revela, não do que nós imaginaríamos e imaginamos ainda; quando não partimos do Evangelho, mas da nossa fútil imaginação, sempre propensa a inventar deuses…

Fomos baptizados “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, e assim existimos agora. Somos cristãos – e não meros crentes em geral -, quando vivemos “em Cristo”, cumprindo a vontade do Pai, no amor do Espírito.

E tirando todas as consequências do facto de, sendo Deus “um só em três”, ou seja, unidade na comunhão, só O conhecermos realmente na prática do amor e exactamente assim. Cumprindo o desejo de Cristo, quando pedia: “Não rogo somente por estes [os primeiros discípulos], mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão-de crer em mim, para que todos sejam um só; como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que tu me deste, para que sejam um como nós somos um. Eu neles e tu em mim, para que eles sejam perfeitos na unidade e para que o mundo reconheça que tu me enviaste e os amaste, como me amaste a mim” (Jo 17, 20-23).

Para nós, cristãos, dizer Deus é referir Cristo e o Pai, na comunhão do Espírito que entre ambos circula. Ou, talvez assim: Vida que gera, Vida gerada e retribuída, Vida circulante e expansiva. São, ainda e sempre, palavras de Cristo: “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo” (Jo 5, 26). Estamos no âmago do mistério de Cristo, como o deixou entrever e agora há-de ser atestado pelos seus discípulos, que vivam também unitrinitariamente e não de outro modo.

Não como especulação, mas como experiência compartilhada e muito concretamente verificada. Na sua primeira epístola, prossegue o mesmo João: “Nisto consiste o seu amor [de Deus Pai]: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. Caríssimos, se Deus nos amou assim, também nos devemos amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se nos amarmos uns aos outros, Deus está em nós e o seu amor é perfeito em nós. Nisto conhecemos que estamos nele e Ele em nós, porquanto nos deu o seu Espírito” (1 Jo 4, 9-13).

De Deus conhecemos o seu amor demonstrado, antecipado às nossas escolhas, pois é assim o verdadeiro amor: precedente e gratuito. Os que se deixavam olhar por Jesus, entreviam-no, desarmados e rendidos. Movidos pelo seu Espírito, também começaram a amar assim, no novíssimo amor de Deus, igualmente gratuitos e persistentes.

A única possibilidade de conhecermos Deus é vivermos já em Deus, deixando que Cristo, pelo seu Espírito, continue em nós a amar o Pai e a amar os outros. Declara-o o mesmo João, sem margem para dúvidas. Primeiro pela positiva: “E nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4, 16). Depois em contraste e comezinho: “Se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar o seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama a seu irmão, ao qual vê, como pode amar a Deus, que não vê?” (1 Jo 4, 20).

Insisto em duas concretizações, tão místicas como práticas. A primeira é eclesial e irradiante, como hoje particularmente importa: Pode qualquer um de nós ter, ou vir a ter, momentos especialíssimos de revelação de Cristo, ressuscitado e próximo, e alguma particular actuação do seu Espírito; mas tais experiências autenticam-se na inserção comunitária, já que cada carisma é dado para a edificação do corpo de Cristo, que é a Igreja, e não para proveito individual ou vanglória, pois “a manifestação do Espírito é dada a cada um para proveito comum” (1 Cor 12, 7).

A segunda é conjugal e familiar, na família que nasce do amor de Deus por todos, do amor de Cristo pela Igreja, como revela a epístola aos Efésios: “ ‘Por isso, o homem deixará pai e mãe, ligar-se-á à mulher e passarão os dois a ser uma só carne’. É grande este mistério; digo-o, porém, em relação a Cristo e à Igreja” (Ef 5, 31-32). Em cada família cristã – ou concretização conjugal do amor de Deus e representação familiar de Deus amor – a unitrindade divina espelha-se na unidade de todos, vivendo num mesmo espírito, em que conjuntamente crescem.

Nisto mesmo consiste a única apologia possível e a maior catequese a fazer, nos tempos tão dispersos que hoje correm. Refiro-me à imprescindível sinalização comunitária e familiar do Deus de Jesus Cristo.

Aos primeiros, que o seguiram curiosos, perguntando-lhe até onde morava, respondeu Jesus tão simplesmente: “Vinde ver”. E o trecho evangélico continua: “Foram, pois, e viram onde morava e permaneceram junto dele nesse dia” (Jo 1, 38-39). Desta primeira convivência nasceu o primeiro testemunho, pois logo a seguir, um deles, André, já atestava a Pedro, seu irmão: “Encontrámos o Messias (que quer dizer Cristo)!” (Jo 1, 41).

A quem duvidar de Deus ou ainda O desconhecer, mostre-lhe a comunidade cristã, em partilha e amor persistentes, que “Ele está no meio de nós”: Cristo e o Pai, no amor vitorioso do Espírito. A quem desacreditar do vínculo matrimonial – uno, indissolúvel e fecundo – demonstre-lhe o matrimónio cristão que tal é possível e imensamente realizador, na doação mútua do Cristo que por cada cônjuge o Pai constantemente oferece, para que o outro “não pereça, mas tenha a vida eterna”.

Nós, cristãos, vamos sabendo que é assim. Vamos conhecendo Deus, reconhecendo-nos n’ Ele, como se revela em Cristo. - No Espírito, alma da Igreja e plena respiração do mundo!

+ Manuel Clemente

Na igreja da Trindade e em Espinho (benção de casais), 19 de Junho de 2011

 
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