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Documentos - Homilias 2011

Deus conta connosco, indispensavelmente

“Eis o que diz o Senhor: ‘Assim como a chuva e a neve que descem do céu não voltam para lá sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, para que dê a semente ao semeador e o pão para comer, assim a palavra que sai da minha boca não volta sem ter produzido o seu efeito, sem ter cumprido a minha vontade, sem ter realizado a sua missão’ ” (Is 55, 10-11).

Amados irmãos e muito especialmente vós, caríssimos ordinandos

Este notável texto profético resume tudo o que acontece a partir de Deus e tudo o que importa da nossa correspondência. Podemos adiantar que cada Eucaristia é acção de graças pelo que Deus realiza no mundo, aí mesmo onde a sua palavra é acolhida e germina.

No mundo, neste mundo concreto que integramos e onde a ressurreição de Cristo, como germinação da semente lançada, tem de alastrar, momento a momento, circunstância a circunstância. Em Cristo e em quem nele ressuscita, por autêntica iniciação cristã, baptismal e apostólica, Deus responde à expectativa das criaturas que “esperam ansiosamente a revelação dos filhos de Deus”, como escrevia Paulo aos Romanos.

Dois mil anos depois, é tão evidente a urgência como a profecia. Não houve tempo em que a resposta de Deus não se concretizasse assim, sempre que encontrou boa terra em que a sua palavra pudesse germinar, como o Evangelho prometia: “aquele que recebeu a palavra em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende. Esse dá fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um”.

Da urgência, nem precisaria de falar, tão evidente é: a subsistência física de muitos, a pauperização crescente de outros, o desacompanhamento de crianças, idosos e doentes, a desistência da vida, o egocentrismo desinteressado, o desrespeito por verdades institucionais ou teóricas, que não se conhecem nem aprofundam… De tudo isto sabemos e nem gostaríamos de saber tanto… Mas, neste momento de acção de graças e ordenações, nós queremos acima de tudo reconhecer que, da parte de Deus, houve e há sempre resposta às urgências do mundo. Mas como a deu em Cristo e nos que viverem em Cristo, como realização cabal da sua palavra e acolhimento pleno da vontade do Pai.

Irmãos caríssimos: Deixemo-nos de vez de expectativas fáceis, alienações repetidas e desilusões certas. O Deus bíblico, como inteiramente se revela na verdade de Jesus e o Pai, num único Espírito, não responde ao mundo de fora do mundo, mas, como canta um hino litúrgico, “no íntimo do mundo como um fogo”, ateado no coração daqueles que, acolhendo a palavra divina, recriam activamente as coisas.

Neste preciso momento, em qualquer parte do mundo, dos arranha-céus de Nova Iorque às imensidões suburbanas da África ou da Ásia; neste preciso momento, em qualquer rincão desta nossa diocese, das famílias desapoiadas aos idosos e doentes que esperam visita e cuidados, do jovem dividido entre o que o seduz e o frustra ao receptor perplexo de mensagens contraditórias… Neste preciso momento, caríssimos irmãos, há gente que escuta a palavra e dá ou dará corpo ao Evangelho de Cristo, germinal e fecundo. E estes irmãos nossos, que daqui a pouco serão sacerdotes e diáconos, estão maravilhosamente nesse número, como sacramentos de Cristo, pastor e servidor de nós todos.

Eles são – nós somos! – quem acredita que a reposta de Deus a todas as situações já lembradas e a tantas outras que poderíamos somar, acontece assim e apenas assim, pois esse é o modo poderoso e humilde da constante criação de Deus e da renovação de todas as coisas em Cristo.

Deus comunica-se a quem lhe escuta a brisa, como Elias no Horeb (cf 1 Rs 19, 12), Deus actua em que lhe incarna a palavra. Essencialmente em Jesus de Nazaré, contemporaneamente em quem o Espírito continua e alarga a mesma obra de Cristo, por Cristo prolongada naqueles que sinceramente, insistentemente, lho pedem: “Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim também fará as obras que eu realizo; e fará obras maiores do que estas, porque eu vou para o Pai, e o que pedirdes em meu nome eu o farei, de modo que, no Filho se manifeste a glória do Pai. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei” (Jo 14, 12-14).

Nem precisaríeis, caríssimos ordinandos, mas deixai-me lembrar-vos como aqui chegastes: fostes ouvindo e discernindo eclesialmente a palavra de Deus, na vossa pessoal referência. Dispondes-vos agora a ser sacramento dela, como sinais vivos da misericórdia de Deus para com todos e cada um.

E, aqui estando, continuais a magnífica história da resposta de Deus ao mundo. Magnífica história, aquela que finalmente vos interessou e nos interessa a todos, mesmo que não abra os noticiários correntes…

- Recordais o começo, indispensável começo, com Maria diante do mensageiro divino, acolhendo um desígnio que ultrapassava imensamente os seus, sem a dispensar minimamente a ela: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). E pouco depois José, tão surpreendido por um acontecimento único, que depois custodiou, como nós os padres havemos de guardar o mistério da Igreja, não nosso mas a nós confiado. Oiçamos o anjo: “José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que Ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados” (Mt 1, 20-21). Assim ouviu e assim cumpriu, José, a quem poderíamos chamar pai adoptivo de nós todos, os renascidos em Cristo.

Recordais também o muito que se seguiu, com a presença e a palavra do Ressuscitado em todas as gerações crentes, por todas as necessidades do mundo. – Como estaríamos hoje, caríssimos irmãos, como estaríamos maravilhosamente hoje, se a disponibilidade de todos à palavra divina fosse como a de Maria e José, fosse como a dos verdadeiros discípulos de Cristo!

Permiti-me seleccionar só alguns, pela sua especial sugestão: Começando por Paulo, com o diálogo que o fez cristão e apóstolo: “… ‘Saulo, Saulo, porque me persegues?’ Ele perguntou: ‘Quem és tu, Senhor?’ Respondeu: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Entra na cidade e dir-te-ão o que tens a fazer’” (Ac 9, 4-6). E assim foi: na estrada encontrou Jesus e em Damasco encontrou a Igreja, começando a proclamar “que Jesus era o Filho de Deus” (cf. Ac 9, 20), como o faria depois e até ao fim da vida. Caríssimos ordinandos, assim com Paulo e assim convosco: Jesus chamou-vos no caminho da vida e em Igreja vos definistes até agora e ainda mais a partir de agora.

Palavras de Cristo, que se tornam audíveis nos diversos tempos e circunstâncias, dando muito fruto quando encontram terra que as acolha. - Lembrais-vos da história de Santo Antão, pai dos monges, e de como ela começou na Alexandria do século III? Ouvi-a, contada por Santo Atanásio: “Depois da morte de seus pais, tendo ficado com uma irmã mais pequena, Antão, que tinha uns dezoito ou vinte anos, tomou conta da casa e da irmã. Não tinham passado ainda seis meses do falecimento de seus pais, quando um dia em que se dirigia, segundo o seu costume, para a igreja, ia reflectindo sobre a razão que levara os Apóstolos a abandonar tudo para seguir o Salvador […]. Meditando nestas coisas, entrou na igreja mesmo no momento em que se lia o Evangelho e ouviu o que o Senhor disse ao jovem rico: ‘Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres. Depois vem e segue-me e terás um tesouro nos Céus’” (Liturgia das Horas, 17 de Janeiro). Sabemos a continuação da história: garantiu a subsistência da irmã e cumpriu integralmente a palavra ouvida. E assim mesmo, com um jovem de Alexandria que ouviu e realizou a palavra de Cristo, nasceu a frondosa árvore da vida monástica, que tanta influência teria depois e até agora.

- Recordais a história de São Francisco, nos começos do século XIII? Era também um jovem e o rei da mocidade de Assis… Até que, narra Tomás de Celano, “calhou de passar um dia perto da igreja de São Damião, quase em ruína e de todos abandonada. Conduzido pelo Espírito, entra nela para orar, prostra-se devoto e suplicante aos pés do Crucifixo e sente-se tocado de modo extraordinário pela graça divina que o torna completamente diferente do que era momentos antes. E estando ainda profundamente emocionado, vê de repente – inaudito milagre! – a imagem pintada de Cristo crucificado despregar os lábios e falar-lhe, chamando-o pelo próprio nome: ‘Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está quase em ruína’” (Vida Segunda, primeira parte, capítulo VI). Sabemos todos como Francisco ouviu as palavras de Cristo e cedo entendeu que a casa a reconstruir era a própria Igreja, Igreja que o confirmou nessa missão pelo bom discernimento do papa Inocêncio III. Tratava-se de encontrar uma resposta verdadeiramente evangélica para aquela sociedade nova que crescia, em que a riqueza de alguns contrastava com a pobreza de muitos, e o urbanismo desafiava as respostas rurais da pastoral de então. Pela vida pobre, a pregação urbana e a fraternidade alargada, Francisco esteve nas origens duma admirável reevangelização da Europa. E tudo porque um jovem generoso ouviu a palavra de Cristo e a cumpriu…

A estes junto, com todo o reconhecimento e justiça, os muitos exemplos de padres da nossa diocese cuja vida vou conhecendo. Ao ouvi-los e especialmente ao visitar as paróquias e iniciativas pastorais a que se dedicam, dou por mim a pensar: “Quanto bem aqui se fez e vai fazendo, com tanto benefício das suas comunidades e terras, exactamente porque este homem permitiu que a palavra de Deus concretizasse nele a obra de Cristo, Bom Pastor de nós todos!”.

Ao longo da minha vida ouvi muitas histórias de vocação, centenas mesmo. Às que conhecia antes, tenho juntado idênticas aqui, na nossa Igreja do Porto. Muitas delas me recordaram os casos de Paulo, Antão e Francisco, como de vários outros santos, nos vários e sucessivos tempos, em todos os estados da vida cristã. De todas se confirma a mesma conclusão, aliás concorde com a Bíblia inteira: Deus actua no mundo através daqueles que verdadeiramente O escutam, e muito mais poderia ter feito, se encontrasse sempre igual acolhimento. É assim a humildade de Deus, que quer depender de nós. É assim a sua força, como semente minúscula que se torna árvore de copa larga, quando encontra terra que a acolha. A terra do nosso coração disponível.

Todos vós, caríssimos ordinandos, ouvistes a palavra divina, e em Igreja a discernistes para o vosso caso concreto. Convosco, como por Paulo, o nome de Jesus será conhecido e proclamado, entre os que o não distinguem ou nunca aprenderam; convosco, o “tesouro do céu” alegrará muitas vidas, como através de Antão; convosco as comunidades cristãs se fortalecerão, em louvor divino e universal fraternidade, como o quis Francisco e a “nova evangelização” absolutamente requer.

- Deus conta indispensavelmente com cada um de vós!

+ Manuel Clemente

Sé do Porto, 10 de Julho de 2011



Receberam a ordenação de Presbíteros os seguintes ordinandos:

 

 

João Pedro Mateiro Lêdo Gomes Marques; Rui Miguel da Mota Alves e Marcos Leandro Babo Coelho - Missionário da Consolata;

Foram ordenados Diáconos: André David de Vasconcelos Aguiar Soares, André Fernando Cardoso Machado, José Ricardo da Rocha Dias, Luís Borges Martins, Pedro Miguel Amorim Rodrigues, Sérgio Filipe Pinho Leal, Frei Abreu Brás - Ordem de S. Bento;

 
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