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Homilia da Missa Exequial do Pintor Júlio Resende PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2011

 

«A criação aguarda ansiosamente a revelação dos filhos de Deus». Com estas palavras, S. Paulo conduz-nos ao sentido autêntico da vida humana que em determinadas ocasiões se nos ofusca porque se exige o transpor das realidades imediatas e sensíveis para nos colocarmos nas essenciais e definitivas.

O Evangelho coloca-nos perante a oração de Jesus que nos convida à simplicidade interior como condição para penetrar nos grandes mistérios da revelação de Deus e dos seus desígnios e, como tal, captar o sentido profundo da pessoa humana.

É verdadeiramente em Cristo Jesus, Deus feito homem, que o ser humano se descobre não só no seu contexto histórico, mas na grandeza da sua dignidade que o faz ultrapassar-se a si mesmo e ansiar pelo absoluto que só em Deus se encontra e só a partir d’Ele lhe pode ser oferecido.

É na esperança que fomos salvos. Esperança performativa, como lhe chama Bento XVI, uma mensagem que plasma de modo novo a mesma vida.

É na esperança, alicerçada na fé cristã, que o Santo Padre nos ajuda a caminhar das incertezas e contradições até à experiência daquilo que pressentimos como algo de necessário a que chamamos vida eterna. Diz ele: «De certo modo, desejamos a própria vida, a vida verdadeira, que depois não seja tocada sequer pela morte; mas, ao mesmo tempo, não conhecemos aquilo para que nos sentimos impelidos. Não podemos deixar de tender para isto e, no entanto, sabemos que tudo quanto podemos experimentar ou realizar não é aquilo por que anelamos. Esta “coisa” desconhecida é a verdadeira “esperança” que nos impele e o facto de nos ser desconhecida é, ao mesmo tempo, a causa de todas as ansiedades como também de todos os ímpetos positivos ou destruidores para o mundo autêntico e o homem verdadeiro». E, prossegue realçando que «a palavra “vida eterna” procura dar um nome a esta desconhecida realidade conhecida. Necessariamente é uma expressão insuficiente, que cria confusão. Com efeito, “eterno” suscita em nós a ideia do interminável, e isto nos amedronta; “vida”, faz-nos pensar na existência por nós conhecida, que amamos e não queremos perder, mas que, frequentemente, nos reserva mais canseiras que satisfações, de tal maneira que se por um lado a desejamos, por outro não a queremos».

«A única possibilidade que temos, continua Bento XVI, é procurar sair, com o pensamento, da temporalidade de que somos prisioneiros e, de alguma forma, conjecturar que a eternidade não seja uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação, onde a totalidade nos abraça e nós abraçamos a totalidade. Seria o instante de mergulhar no oceano do amor infinito, no qual o tempo – o antes e o depois – já não existe. Podemos somente procurar pensar que este instante é a vida em sentido pleno, um incessante mergulhar na vastidão do ser, ao mesmo tempo que ficamos simplesmente inundados pela alegria».

Assim, conclui, o exprime Jesus, no Evangelho de João: «Eu hei-de ver-vos de novo; e o vosso coração alegrar-se-á e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria» (16,22) (Enc. Spe Salvi, nº 12).

Devemos olhar neste sentido, se quisermos entender o que visa a esperança cristã, o que esperamos da fé e do nosso estar com Cristo.

Dizemos o nosso adeus ao Pintor Júlio Resende. Sentimos que se separa do nosso convívio um homem cristão com uma capacidade invulgar que espelhou o seu talento em numerosas obras de arte que enriquecem o património nacional e mesmo internacional.

Falar do homem, da natureza, da esperança, da simplicidade, da atenção ao outro, da interioridade, da sua fé em Jesus Cristo e pertença à Igreja, é referir a ilustre pessoa do Pintor Júlio Resende, como um verdadeiro humanista cristão. A ele se aplicam as palavras que João Paulo II dirigiu aos artistas, no ano do Jubileu, quando diz «a beleza é chave do mistério e apelo ao transcendente. É convite a saborear a vida e a sonhar o futuro». Que as suas obras possam conduzir àquele Oceano infinito de beleza, onde o assombro se converte em admiração, inebriamento, alegria inexprimível. Certamente que a sua arte contribui para a consolidação duma beleza autêntica que, como revérbero do Espírito de Deus, transfigura a matéria, abrindo os ânimos ao sentido do eterno. «Toda a forma autêntica de arte é, a seu modo, diz, ainda João Paulo II, um caminho de acesso à realidade mais profunda do homem e do mundo. E, como tal, constitui um meio muito válido de aproximação ao horizonte da fé, onde a existência humana encontra a sua plena interpretação. Por isso, é que a plenitude evangélica da verdade não podia deixar de suscitar, logo desde os primórdios, o interesse dos artistas, sensíveis por natureza a todas as manifestações da beleza íntima da realidade».

Recordo, neste momento da partida deste mundo do nosso irmão Júlio Resende, as palavras que encontramos na mensagem final do Concilio Vaticano II, onde se pode ler o seguinte: «O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração». Que belo contributo ele nos deu no nosso caminhar em direcção ao absoluto que é Deus.

A par com muitas obras da mais diversa índole, o Pintor Júlio Resende contribuiu para o enriquecimento da arte sacra. São diversos os seus trabalhos que encontramos em muitas Igrejas e santuários. É justa a admiração e gratidão que nesta hora devemos reconhecer por este património espiritual. Porque tudo isto constitui, na história da cultura, um amplo capítulo de fé e de beleza. Dele continuamente tirarão proveito sobretudo os crentes para a sua experiência de oração e de vida. Para muitos deles, as expressões figurativas da Bíblia constituíram mesmo um meio concreto de catequização. Mas para todos, crentes ou não, as realizações artísticas inspiradas na Sagrada Escritura permanecem um reflexo do mistério insondável que abraça e habita o mundo (cfr. João Paulo II, carta aos Artistas (1999), 5).

Justamente, enquanto obediente ao seu génio artístico na realização de obras verdadeiramente válidas e belas, não só enriquece o património cultural da nação e da humanidade inteira, mas presta também um serviço social qualificado ao bem comum.

Ecoa ainda em nós a belíssima expressão de Bento XVI, no seu encontro com as pessoas da arte, na sua recente visita a Portugal, que diz: «Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza». Nesta ocasião, é forçoso reconhecer não só que o Pintor Júlio Resende fez coisas belas que ficam a tornar o mundo mais humano, mais fraterno, mais justo e verdadeiro, mas tudo isso não poderia exprimir-se se não partisse de uma vida cultivada e alicerçada no dom da beleza.

Mas esta é a hora de aprendermos com aquele que nos deixa. Fica-nos a saudade e a riqueza da sua pessoa, ficam as pegadas com que marcou a sua existência, para que nos vestígios do seu peregrinar nos sintamos seguros do horizonte para onde caminhamos e dos valores que devem marcar a nossa existência para que seja digna da nossa condição humana.

Vós, obreiros da cultura em todas as suas formas, fazedores do pensamento e da opinião, «tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e colectiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. […] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita» (Discurso no encontro com os Artistas, 2009).

Imploramos do Senhor, o Bom Pastor, que tão bem foi retratado pelo Pintor Júlio Resende, que o torne participante do Seu Amor Infinito, e o faça gozar a paz plena e a alegria definitiva.

Termino rogando a Nossa Senhora, Esplendor da Beleza, que o acolha no seu regaço de Mãe.                     
Amén

Igreja Paroquial de Valbom, Gondomar, 22 de Setembro de 2011

+ João Lavrador, Bispo Auxiliar do Porto

 
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