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Ordenações na Sé do Porto - 8 de Julho PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2012

 

Sede também outros, para que se vislumbre o céu!

Homilia das Ordenações

 

Caríssimos ordinandos, estimados irmãos:

 

Já chegavam a Nazaré os ecos do que o jovem carpinteiro ia fazendo pelas margens do lago… Estranhavam certamente, mas as notícias sucediam-se. Até ao dia em que ele próprio lhes dirigiu a palavra, em plena sinagoga. “Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam: «De onde lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos pelas suas mãos? Não é ele o carpinteiro […]?» E ficavam perplexos a seu respeito”.

 

Parece contraditório, sem de facto o ser. Na verdade, esperavam o Messias, há muito o esperavam. Mas não assim: conhecido, conterrâneo e habitual, como crescera e trabalhara ali mesmo, com os seus parentes também. Esperavam, isso sim, um grande rei, como David o teria sido. Não um carpinteiro, como seu pai adotivo o fora, com uma família humilde e sem ressalto. E tão grande era o despiste a este propósito -, entre o que teimavam em esperar e o que realmente tinham diante dos olhos -, que nem a “sabedoria” nem os “prodigiosos milagres” de Jesus os conseguiam convencer.

Estranha e persistente contradição, como aliás continua a verificar-se. As nossas expectativas, ainda e sobretudo as mais altas, não estão em geral disponíveis para o mistério cristão, propriamente dito. Aceitam um “Cristo” que se acomode a elas, resistem a um Cristo que totalmente as desafie. A este, rejeitam-no ou adiam-no, bem como à insubstituível lição duma vida que apenas se garante quando se entrega; e a um modo de ser e aparecer que não se impõe nem ofusca, permanecendo na verdade das coisas simples e na preferência dos últimos lugares.

Assim foi Jesus em Nazaré, simples demais para espíritos complicados, desarmado demais para preconceitos velhos, comum demais para ansiosos de exceções. E, como não teve receção, nada pôde acontecer de seguida: “Jesus não podia ali fazer qualquer milagre”.

Dramático foi, como continua a ser. Continuamos disponíveis para as coisas comuns e para grandes admirações; muito menos disponíveis para nos admirarmos no comum, como Cristo aconteceu…

No seu corpo eclesial, que agora tem, Cristo continua presente – e como que visivelmente presente – no dia-a-dia e no corre-corre das nossas comunidades e das sociedades em que se integram. – Quem dá por Ele, dentro e fora dos templos em que a sua palavra ressoa, nas mãos ungidas que prolongam as suas, nas vidas entregues em que a sua Páscoa revive? – Quem dá por Ele, num espaço-tempo que continua a preencher, mas só detetado pela limpidez em que a verdade de Deus se alcança: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8)? - Quem dá por Ele, abrindo-lhe de par em par as portas do coração e da vida, para que a absoluta maravilha do Deus-connosco realmente aconteça e por fim deslumbre? – Quem dá por Ele e se converte ao seu modo de ser, pascalmente ser?

Caríssimos ordinandos, deixai-me responder por todos: Quem dá por Ele, hoje e aqui, sois especialmente vós. Agradecei-o, antes de mais; agradecei, pois só por Deus se fixaram os vossos olhos num Cristo verdadeiramente Cristo, e só por Deus lhe aderistes totalmente, no autêntico milagre da vossa entrega agora.

Foi esta fixação mental e afetiva em Cristo, só por Deus proporcionada e garantida, que vos trouxe hoje aqui, à consagração ministerial das vossas vidas. Melhor dizendo, para que o Ressuscitado faça de vós o sinal vivo da sua presença e atuação pastoral, para o bem de todos.

Maravilha espantosa, para quem realmente a considerar. Cada um de vós se deixou repassar pela caridade de Cristo em favor dos irmãos, tornando-se matéria apta e forma sacramental da graça. Nada de exterioridades nem devaneios, nada de ostensivo ou virtual, tudo de assimilação rendida da Páscoa de Cristo - e de Cristo Pastor e Servo, mais precisamente.

Neste momento único das vossas vidas todas, caríssimos ordinandos, vós acrescentais realismo pessoal à realidade absoluta da presença de Cristo no mundo; e nisto mesmo vos fixais, porque sabeis e anunciais, com um magnífico trecho da Carta aos Colossenses, que “a realidade está em Cristo” (Cl 2, 17).

Este é o milagre, que permitis que aconteça. Todos os que aqui estamos e convosco estamos, vos agradecemos e apoiamos, como hoje e sempre rezaremos para que não acabe nunca, por mais anos que vivais, no momento eterno em que Deus nos salva.

A “nova evangelização” que hoje se pede há de ser sobremaneira factual; e a vossa ordenação é um facto indesmentível. Em vós sim, Cristo pôde e poderá fazer milagres. Muito gratos vos estamos, pela oportunidade que lhe dais.

E continuai assim, como dentro de momentos a vossa prostração traduzirá, imitando aqui o próprio Cristo em Getsémani, inteiramente rendido à vontade do Pai. Vontade que se resumia na salvação do mundo, requerendo para tal uma disponibilidade inteira, custasse o que custasse: encontrou-a em Cristo, como agora a encontra em vós, que recebereis a sua graça para que assim seja sempre.

Daqui a pouco vos perguntarei, aos que recebeis o presbiterado, entre outras coisas importantes: “Quereis unir-vos cada vez mais a Cristo, Sumo Sacerdote, que por nós Se ofereceu ao Pai como vítima santa, e com Ele consagrar-vos a Deus para salvação dos homens?». Respondereis: «Sim, quero!». E a graça divina não necessita de mais nada senão da continuação dessa resposta em todos os momentos da vossa vida, especialmente naqueles em que mais preciso for passar pelo horto de Getsémani para chegar ao horto da ressurreição, própria e alheia.

É também por isso – só por isso! – que o vosso lugar por excelência será o altar, onde o gesto eucarístico é de Cristo e vosso, a todos dizendo o que as vossas vidas significarão: “Isto é o meu corpo, entregue por vós”.

Semelhantemente vos perguntarei a vós, ordinandos de diácono: “Quereis exercer o ministério de diácono, com humilde caridade, para auxílio da Ordem sacerdotal e para maior bem do povo cristão?”. Respondereis: “Sim quero!”. E o mais – que é tudo – será com a graça divina, conformando-vos hoje e sempre a Cristo, que por si e por vós continuará a dizer: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22, 27).

Nesta sé do Porto – e em celebração tão bela e cordial - as coisas parecerão mais fáceis e evidentes do que naquele dia em Nazaré da Galileia… Na verdade, dois milénios demonstraram – a quem teve olhos para ver e ouvidos para ouvir - que a verdade de Cristo e as maravilhas que ela produz se impõem por si mesmas, desde que continuem a ser realmente as suas. No entanto, caríssimos ordinandos, as resistências permanecerão, porque a disposição habitual é para fazermos as coisas à nossa maneira e a vontade do “mundo” é de ser satisfeito – mesmo religiosamente satisfeito – para se garantir a seu gosto.

Ali estava Jesus de Nazaré, que não constituiu família natural porque inaugurava a dos filhos de Deus; ali estava ele, que não julgava a partir de si, mas unicamente a partir de Deus Pai; ali estava ele, que da carpintaria material passava à construção dum Reino em que todos coubessem - e gratuitamente coubessem. Mas continuava a ser ele, como o tinham visto crescer. – Porque quereria agora dizer tais palavras e alargar os horizontes duma terra que teimava em ser pequena?

Caríssimos ordinandos: Para vós, como para tantos que vos acompanhamos hoje, o repto é o de sempre, quer pessoal, quer pastoralmente. Significa converter o mundo a Cristo, não entretendo o mundo com pretextos alegadamente “cristãos”.

A quem vos disser que “tendes de ser como os outros”, respondereis redondamente que não, porque preferistes ser para os outros, como Cristo o foi e continuará a ser através de vós. A quem vos disser que “o padre há de ter a sua vida, como toda a gente tem direito a tê-la”, responderias que não, pois vos desapossastes de vós, para que Cristo vos preencha inteiramente com a sua vontade e o seu afeto, assim chegando a todos os que precisam, sobretudo aos que menos são queridos e amados. A quem vos disser que é preciso “dialogar”, respondereis que assim deve ser, mas acrescentando que, quando o diálogo é com Deus, o que mais importa é escutá-Lo; também através da Igreja, onde ressoam as palavras de Cristo aos setenta e dois: “Quem vos ouve é a mim que ouve, e quem vos rejeita é a mim que rejeita” (Lc 10, 16). E, quando as ideias individualmente surgirem e os projetos particulares se esboçarem, também lembrareis – a vós e porventura a outros – que Cristo nos reuniu em Igreja e os apóstolos não caminharam sozinhos.

 

Só deste modo, caríssimos ordinandos, e apenas assim, podereis ajudar os outros a libertarem-se das amarras exteriores ou íntimas que lhes adiam a Páscoa. Com Cristo vos consagrais a Deus, para a consagração do mundo, única missão da Igreja enquanto tal. Sereis sacramentos vivos, para um mundo de Deus, onde caibam todos: um mundo que nunca acontecerá enquanto permanecer cativo de si, nos particularismos em que gostosamente se acomoda; mesmo ficando-se cada um pela sua terra, o seu sangue e os seus mortos, motivos consideráveis mas pesados duma “religiosidade” que tarda em sair si mesma.

Do que menos precisamos é de um sacerdócio chão e de cristãos indefinidos. Definamo-nos então, para interpelar o “mundo” - o que está fora e o que demora em nós – e o podermos fermentar com o Evangelho autêntico. Nem outra coisa se propõe o próximo Sínodo dos Bispos, ligando evangelização e fé: “A nova evangelização para a transmissão da fé cristã”. Para este fim e não outro, nem menos do que ele.

Em Cristo, a história atingiu o seu fim e ponto ómega. Em nós, vai percorrendo o seu curso, com os novos campos que a sementeira evangélica mais e mais atinge. – Prossegui então, caríssimos ordinandos, prossegui em vós mesmos, para que ninguém desista. Como Jesus em Nazaré, estai na terra em que estiverdes. Mas, sempre como Ele, sede também outros, para que se vislumbre o céu!

+ Manuel Clemente

Sé do Porto, 8 de Julho de 2012

 

 

Receberam ordenação de Presbíteros:

  • André David de Vasconcelos Aguiar Soares - natural de Rôge - Vale de Cambra, tendo realizado estágio Pastoral em S. Pedro da Cova (Missa Nova - 14 Julho, 17h, Rôge, Vale de Cambra);
  • André Fernando Cardoso Machado - natural de Carvalhosa - Marco de Canaveses, tendo realizado estágio Pastoral em Ermesinde (Missa Nova - 28 Julho, 17h, Carvalhosa, Marco de Canaveses;
  • José Ricardo da Rocha Dias - natural de Vandoma - Paredes, tendo realizado estágio Pastoral em S. Martinho do Bougado (Missa Nova - 22 julho, 16h30, Vandoma, Paredes);
  • Luís Borges Martins - natural de Portela - Penafiel, tendo realizado estágio Pastoral em Valongo (Missa Nova - 12 Agosto, 16h, S. Paio da Portela, Penafiel);
  • Pedro Miguel Amorim Rodrigues - natural de S. Martinho de Bougado - Trofa, tendo realizado estágio Pastoral em Gondomar (Missa Nova -  15 de julho, 16h, S. Martinho de Bougado, Trofa);
  • Sérgio Filipe Pinho Leal - natural de Paço de Sousa - Penafiel, tendo realizado estágio Pastoral em Espinho (Missa Nova - 29 Julho, 16h Paço de Sousa, Penafiel;
  • Frei Abreu Brás Cuvíngua- Ordem de S. Bento
  • Nuno Alexandre Fernandes da Rocha - Sacerdotes do Coração de Jesus (Dehonianos)

 

Diáconos:

  • Jorge Manuel da Rocha Nunes - natural de Vilela – Paredes
  • Ricardo Álvaro Aguiar Ribeiro - natural de Soalhães – Marco de Canaveses

 

 


 
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