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Fátima - Homilia da Missa da Vigilia da Peregrinação Aniversária de 12 de setembro - D. Pio Alves PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2012

 

Construtores de uma Sociedade solidária

 

1. A Eucaristia que hoje celebramos tem, no Missal Romano, o título “Pelo progresso dos povos”.

Sob o olhar materno da Santíssima Virgem, Nossa Senhora de Fátima, somos convidados a ultrapassar as fronteiras das nossas necessidades pessoais e a dedicar a nossa operosa atenção aos outros: filhos de Deus, reunidos connosco “numa só família”. Convido-vos, porém, a não olhar para tão longe de nós próprios que fiquemos apenas por sentimentos genéricos de solidariedade; convido-vos a não olhar para tão longe de nós próprios que não consigamos já reconhecer as pessoas com nomes, apelidos e circunstâncias concretas. Sem esquecer que integramos uma sociedade global, não podemos deixar de pensar primeiro, ordenadamente, nos familiares, nos vizinhos, nos conterrâneos, nos portugueses.

 

E, para ultimar, desde já, o quadro desta nossa breve reflexão, peço-vos que não comeceis a buscar já culpados, ou, melhor, corresponsáveis na culpa dos desastres sociais, que os há, certamente. Convido-vos a que tenteis, primeiro, responder à pergunta: que posso eu fazer pelo verdadeiro progresso daqueles que me são mais próximos?

2. Trata-se, no fim de contas, de pôr em prática o que acabámos de ouvir, da boca de S. Pedro, na segunda leitura (1Pe 4, 7-10): “Cada um de vós ponha ao serviço dos outros os dons que recebeu, como bons administradores da graça de Deus, tão variada nas suas formas”. E ainda, de um modo mais concreto: “Praticai entre vós a hospitalidade, sem murmuração”.

Somos confrontados com um claro apelo à responsabilidade pessoal e social. Como cidadãos e como cristãos temos o dever de pôr em prática todos os recursos que Deus pôs à nossa disposição e que não são nunca exclusivo património pessoal. “Os problemas sócio-económicos, recorda-nos o Catecismo da Igreja Católica (1941), só podem ser resolvidos com a ajuda de todas as formas de solidariedade: solidariedade dos pobres entre si, dos ricos com os pobres, dos trabalhadores entre si, dos empresários e empregados na empresa; solidariedade entre as nações e entre os povos”. O exercício da nossa responsabilidade deverá ter sempre, contudo, as marcas da nossa condição de discípulos de Jesus Cristo: como cidadãos, temos o direito e o dever de, livremente, manifestar a nossa concordância ou discordância com o rumo traçado para a sociedade; como cristãos, temos obrigação de não nos alhearmos dos reais problemas da sociedade e de, com realismo, cooperarmos para alimentar a esperança.

3. Tenho consciência de que não prestaria um bom serviço à Palavra de Deus que acaba de ser proclamada se, com as minhas palavras, encobrisse a clareza da sua mensagem. Na realidade, também o texto de Isaías (58, 6-11), da primeira leitura, e as palavras de Jesus Cristo, recolhidas pelo evangelista S. Lucas (14, 12-14), são facilmente compreensíveis por si mesmas, sem grandes comentários.

Recorda-nos o Profeta, que sem a caridade, feita de gestos concretos, de pouco ou nada servem práticas de cariz religioso. E a real proximidade aos necessitados como que nos põe Deus ao alcance da mão: “estou aqui”, diz o Senhor, quando, com obras, nos fazemos presentes aos carenciados.

Diante da clareza destas palavras de Isaías resulta ainda mais evidente que não são alternativas mas inclusivas a atenção urgente aos mais carenciados e a revisão de questões estruturais da sociedade. Quem está a morrer de fome não poderá esperar um ano, um mês, uma semana que seja até que se resolvam problemas estruturais; é óbvio, por outra parte, que a atenção urgente a situações-limite não dispensa a reconsideração ponderada de modelos alternativos de sociedade. Soa, por isso, a mero discurso de circunstância a acusação indiscriminada de assistencialismo feita a quem, no dia-a-dia responde, com obras, à fome, à sede, ao frio. É lamentável a pobreza! Mais lamentável ainda que possa haver quem (pessoas ou instituições), sub-repticiamente, possa viver à custa da pobreza alheia.

Nosso Senhor Jesus Cristo, no texto do Evangelho que escutámos, mesmo correndo o risco da descortesia para com quem o tinha convidado, ajuda-nos a perceber que a dádiva verdadeira nunca pode ser nem parecer negócio. E a dádiva ao indigente é, à partida, a que mais seguramente garante a verdadeira retribuição: a felicidade já aqui na terra e a vida em Deus.

4. Recordava, ao início, que, sob o olhar materno de Maria, estamos a celebrar a Missa “Pelo progresso dos Povos”.

O verdadeiro progresso de um Povo não pode esquecer a pobreza, mas não se mede apenas pela quantidade de bens materiais disponíveis e pela equidade na sua distribuição. “Não é mal desejar uma vida melhor, escreve o Beato João Paulo II na encíclica Centesimus annus (36), mas é errado o estilo de vida que se presume ser melhor, quando ela é orientada ao ter e não ao ser, e deseja ter mais não para ser mais, mas para consumir a existência no prazer, visto como fim em si próprio. É necessário, por isso, esforçar-se por construir estilos de vida, nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom, e a comunhão com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as opções do consumo, da poupança e do investimento”.

Quem melhor do que a Virgem Maria, a discípula fiel, soube relacionar-se com todos e encontrar nos escassos bens materiais de que dispôs ocasião de serviço ao próximo e de louvor a Deus? Como aos Pastorinhos, também a nós nos pergunta: “Quereis oferecer-vos a Deus”?

Alimentados pela Palavra de Deus, respondamos afirmativamente e assumamos o compromisso de sermos, com os nossos irmãos, “construtores de uma sociedade solidária”.

 

Fátima, 12 de setembro de 2012

+Pio Alves, Bispo Auxiliar do Porto

 
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