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Fátima - Homilia da Missa de encerramento da Peregrinação Aniversária de 13 de setembro - D. Pio Alves PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2012

 

Construtores de uma Sociedade solidária

 

1. Na oração coleta desta Missa de Nossa Senhora, Mãe da Divina Providência, pedimos a Deus, que “não se engana em seus decretos”: “pela intercessão da Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, afastai de nós todo o mal e concedei-nos os bens de que precisamos”. Por sua vez, a seleção das leituras da Liturgia da Palavra ajuda-nos a responder à pergunta de Nossa Senhora aos Pastorinhos: “Quereis oferecer-vos a Deus?”, dentro do sub-tema deste mês de setembro “Construtores de uma sociedade solidária”.

 

Sob o olhar materno da Santíssima Virgem, Nossa Senhora de Fátima, somos, assim, convidados a ultrapassar as fronteiras das nossas necessidades pessoais e a dedicar a nossa operosa atenção aos outros. Somos convidados, porém, a não olhar para tão longe de nós próprios que fiquemos apenas por sentimentos vagos de solidariedade; somos convidados a não olhar para tão longe de nós próprios que não consigamos já reconhecer as pessoas com nomes, apelidos e circunstâncias concretas. Sem esquecer que integramos uma sociedade global, não podemos deixar de pensar primeiro, ordenadamente, nos familiares, nos vizinhos, nos conterrâneos, nos portugueses.

2. Por mais distraídos que andemos, ao olhar à nossa volta descobrimos facilmente os muitos males que nos sobram e os muitos bens que nos faltam. Com sereno realismo, não é difícil descobrir, na normalidade do nosso dia-a-dia, um cortejo de carenciados que representa abundantemente aqueles de quem fala Nosso Senhor Jesus Cristo no texto do Evangelho, que escutámos (Mt 25, 31-46). A fome, a sede, a falta de teto, o frio, a nudez, a doença, a ausência de liberdade são estigmas que vão invadindo, como mancha de azeite, a nossa Sociedade: umas vezes escancaradamente; outras, no silêncio envergonhado de quem ainda mal acordou para uma nova realidade.

Um cidadão, um cidadão cristão, interpelado por este inequívoco desafio de Jesus Cristo, não pode fazer de conta: que não vê, que não ouve, que não sabe, que não pode, que não é consigo, que outros farão, que as autoridades resolvam! As nossas responsabilidades humanas, as nossas responsabilidades sociais, as nossas responsabilidades cristãs não se resolvem apenas com a legítima crítica a quem supostamente governou ou governa … desgovernadamente. Há um âmbito de responsabilidade pessoal que é inalienável e sem cujo exercício, aliás, não há estrutura social capaz de responder adequadamente.

Por outra parte, nós, discípulos de Jesus Cristo, porque temos o dom de um horizonte muito mais amplo, temos, por isso mesmo, uma responsabilidade acrescida. As palavras do Mestre não deixam lugar a qualquer dúvida: o faminto, o sedento, o peregrino, o desprotegido, o doente, o preso é Ele mesmo. Portanto, dito resumidamente, piedade sem caridade é apenas teatro religioso! Como escreveu Santo Agostinho, “o que reúne todas as outras virtudes e não tem caridade é como o que transporta o pó contra o vento”[1]. Ou, como diz outro autor da literatura cristã antiga, “não se entende o amor a Deus se não leva consigo o amor ao próximo. É ‘como se sonhasse que estava a andar’, é só sonho, não se anda. Quem não ama o próximo, não ama a Deus”[2]. Sem pôr em causa a legitimidade e a obrigação de tratar bem os animais, não resisto a citar, pela sua atualidade, umas palavras de S. João Crisóstomo, famoso orador cristão do século IV-V: “Muitas vezes, ao ver um cão faminto, comovemo-nos; diante de um animal que sofre fome enchemo-nos de pena. E vendo o teu Senhor não te comoves? Que defesa tens nisso?”[3].

Os exemplos de caridade efetiva, heroica, que nos legaram os nossos primeiros irmãos na fé, referidos, por exemplo, em Atos 2, 44, não são gestos ultrapassados, incompatíveis com o estilo da Sociedade atual. Devem ser, pelo contrário, apelos a levar a sério as exigências de vida cristã, sem dúvida, adaptadas às características cristãmente aceitáveis da nossa Sociedade.

A nossa imaginação (cristã) encontrará mais facilmente respostas adequadas e soluções compatíveis se estiverem presentes as palavras com que Jesus Cristo encerra cada uma das partes da Sua alocução. Diz aos justos: “Quantas vezes o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos a Mim o fizestes”; e aos outros, desinteressados do bem do próximo: “Quantas vezes o deixastes de fazer a um dos meus irmãos mais pequeninos, também a Mim o deixastes de fazer”.

A caridade para com o próximo não é, em primeiro lugar, questão de imaginação, mas fruto do amor a Deus e, por isso, também ao próximo. Nessa fonte inesgotável, todo o homem de boa vontade e particularmente o crente, discípulo de Jesus Cristo, encontrará, no meio das dificuldades, razões para a esperança e incentivo para a ação. Mesmo sem procurar a recompensa, não esquecerá a certeza que nos é transmitida por S. Paulo na Carta aos Coríntios (2Cor 9, 7-9), que escutámos: “Deus ama aquele que dá com alegria. (…) é poderoso para vos cumular de todas as graças, de modo que, tendo sempre e em tudo o necessário, vos fique ainda muito para toda a espécie de boas obras”.

3. No contexto desta celebração, cobram particular força as palavras de Isaías (66, 10-14c), aplicáveis à Santíssima Virgem: “Como a mãe que anima o seu filho, também Eu vos confortarei”. “Maria, escreveu o Beato João Paulo II, continua a repetir a todos as mesmas palavras que disse outrora em Caná da Galileia: ‘Fazei o que Ele vos disser’. É Ele, Cristo, o único Mediador entre Deus e os homens. (…) A Virgem de Nazaré tornou-se a primeira ‘testemunha’ deste amor salvífico do Pai e deseja também permanecer a sua humilde serva sempre e em toda a parte. Em relação a todos e a cada um dos cristãos e a cada um dos homens, Maria é a primeira na fé: é ‘aquela que acreditou’; e, precisamente com esta sua fé de esposa e de mãe, quer atuar em favor de todos os que a ela se entregam como filhos. (…) Também eles reconhecem cada vez mais em toda a sua plenitude a dignidade do homem e o sentido definitivo da sua vocação, porque ‘Cristo … revela também plenamente o homem ao homem’ ”[4].

A Santíssima Virgem, como aos Pastorinhos, também a nós nos pergunta: “Quereis oferecer-vos a Deus”?

 

Aprendamos com ela a percorrer o fecundo caminho da fé e da esperança. “Uma esperança inabalável, que – em palavras de Bento XVI pronunciadas aqui em Fátima a 13 de maio de 2010 – frutifica num amor que se sacrifica pelos outros, mas não sacrifica os outros”[5]. É esse também o testemunho que nos deixaram os três Pastorinhos.

Alimentados pela Palavra de Deus, respondamos afirmativamente ao apelo de Deus que nos chega por Maria e assumamos o compromisso de sermos, com os nossos irmãos, “construtores de uma sociedade solidária”.

 

Fátima, 13 de setembro de 2012

+Pio Alves, Bispo Auxiliar do Porto

 

 

 


[1] Santo Agostinho, Sermão sobre a humildade e o temor de Deus [632].

[2] S. João Clímaco, Escada do Paraíso, 33 [625].

[3] João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de S. Mateus, 79, 2.

[4] João Paulo II, A Mãe do Redentor, 46.

[5] Bento XVI, Textos de apoio aos temas mensais, 279.

 
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