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HOMILIA DE DOMINGO DE RAMOS NA PAIXÃO DO SENHOR PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2013

 

- Que os ramos de hoje se mantenham vivos em corações que não dormem!

 

Celebrarmos os Ramos na Paixão do Senhor tem significado sempre, mas grandíssimo agora. Significado sempre, porque a humanidade ficou profundamente marcada por quanto aconteceu naqueles dias únicos.

Não foi apenas um jovem que entrou em Jerusalém, aclamado por outros jovens, com ramos e palmas e aos clamores de “Hossana!”. Não foi apenas o contraste, poucos dias passados, com as aclamações mudadas em insultos e gritos de “Crucifica-o!”, junto ao governador romano. Nem foi apenas mais uma cruz levantada no Gólgota, entre mais duas mencionadas e tantas outras que se erguiam então…

 

Não foi apenas, porque foi tudo isso, certamente, mas vivido agora no próprio coração de Deus e no nosso, que em Jesus já era seu.

Caríssimos jovens, caríssimos irmãos e irmãs, é exatamente por isso que não lembramos apenas, antes celebramos, num misto de alegria pressentida e mágoa aberta em esperança, tudo o que Jesus passou por nós e tudo o que podemos ultrapassar com ele. Pela sua paixão salvou a paixão do mundo, de todo o espaço e tempo que a recebam. Como a nossa também, e precisamente agora.

Bem precisamos e disto mesmo precisamos. - Pois não tendes vós, caríssimos jovens, muita esperança a escoar? E isto mesmo em certezas consistentes, que nenhuma dificuldade esmoreça e nenhum desaire invalide?!

Tendes sim. Tendes vós e mantemos todos, apesar de tudo. E é neste ponto que Jesus interessa tanto e nunca deixa de atrair.

 

Ouvimo-lo no Horto das Oliveiras, quando todas as rejeições do que propunha e todas as negações ao que afirmava se abatiam sobre ele e o ameaçavam de morte certa e atroz. Mas ali estava e se mantinha, prostrado diante de Deus Pai, que sempre o conduzia, para que no coração de Cristo a vontade de Deus fosse finalmente a vontade do homem e tudo pudesse recomeçar no mundo. Ouvimo-lo: «Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice. Todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua».

É deste consentimento de Cristo que vivemos, e da sua compaixão também, pois «por nós homens e para nossa salvação desceu dos céus»; para abrir o céu na terra, na comunhão com Deus, nosso princípio sem princípio e nosso fim sem fim. E não o celebrando só por fora, mas bem no íntimo dos nossos corações convertidos pela graça e o amor de Cristo.

- Quantas vezes, caros irmãos, quantas vezes, perante a estreiteza do caminho, perante as impossibilidades previstas, diante de portas que se fecham aos projetos que nos movem, sentimos o receio e o recuo?! Mas é nessa altura que a fé pode tudo quanto vale e nos leva a responder como Jesus, ao Pai das vitórias garantidas: «Não se faça a minha vontade – muito menos a de desistir – mas a tua!».

E isto mesmo e sobretudo, quando nos disserem que não vale a pena cumprir uma lei tão alta como a do próprio Deus e seguir um caminho tão estreito como o de Jesus; que ser verdadeiro, honesto, puro, fiel e bondoso são ideais ultrapassados, de pouco gozo e menos lucro; que salvaguardar a vida de todos e de cada um, da conceção à morte natural, é nadar contra a corrente e persistência inglória; que promover ativamente a família, assente na complementaridade homem – mulher e na sucessão geracional, é apenas uma hipótese entre outras equivalentes; que empenhar-se na construção duma sociedade justa e solidária, onde não falte a ninguém o que a dignidade humana sempre requer, não passa dum belo ideal, à espera de melhor dias…

Mesmo que outros – ou a nossa consciência adormecida – nos sussurrassem estas e outras sem-razões, a vossa presença aqui, quais verdejantes Ramos na Paixão do Senhor, afirma-vos com Cristo na vontade do Pai. E é precisamente aí que a vida recomeça e os bons projetos se garantem. A partir de Deus, inesgotável Fonte da vida do mundo.

 

Prosseguia o trecho evangélico, dizendo que veio um anjo do céu, a confortar Jesus. Isto mesmo o sabeis, vós também, pois nada importa tanto como a consolação duma consciência em paz.

Quando somos fiéis a Deus, que nos fala no íntimo do coração, quando seguimos Cristo na prática das bem-aventuranças, não nos faltam “anjos”, ou seja, sinais de que é esse o caminho, de que vamos bem e não estamos sós. Reforçam-se nessa altura as verdadeiras amizades, confirmam-se os bons propósitos, abrem-se portas onde só apareciam muros…

Deixai-me insistir em que, se estamos aqui, é precisamente porque já experimentámos algo disso mesmo, ou seja, a necessidade de prosseguir no caminho de Cristo, ainda que tal signifique «entrar pela porta estreita», e os apoios que sempre acabamos por encontrar, da parte de um Deus que nos ressuscita e de verdadeiros irmãos que nos estimulam.

Ouvimos também que, sempre no Horto e depois de ter orado, Jesus procurou os discípulos mas os encontrou a dormir… Disse-lhes então: «Porque estais a dormir? Levantai-vos e orai, para não entrardes em tentação».

É grande advertência a todos nós. Abre-se hoje uma semana maior, chamada “santa” por nos falar intensamente de Deus, como também Ele nos falou claramente em Cristo. Vivamo-la em reforçada atenção à liturgia da Igreja, que, sobretudo no Tríduo pascal nos fará participar da paixão e da ressurreição de Cristo. – Que os ramos de hoje se mantenham vivos em corações que não dormem!

 

+ Manuel Clemente

Sé do Porto, 24 de março de 2013

 
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