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Benção das Pastas, bênção para o mundo PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2013

Caros amigos finalistas, todos vós que formais a Academia do Porto nas suas universidades e escolas, caríssimas famílias e muito especialmente as mães neste dia que lhes é dedicado, caríssimos irmãos e irmãs aqui reunidos na bênção das pastas do presente ano de 2013: - Sede bem-vindos a este lindo lugar da nossa cidade, onde pulsa o seu coração, hoje académico e cristão, forte e irradiante como todos quantos se dispõem a servir a sociedade com as habilitações adquiridas nos seus cursos!

Ouvimos a Palavra de Deus e com ela partiremos também, como em cada Missa deve acontecer. Deixai-me repartir convosco apenas alguns tópicos, retirados das três leituras.

 

O primeiro refere-se aos Atos dos Apóstolos, texto fundamental sobre a vida dos primeiros cristãos e a evangelização que fizeram. A questão que se punha era a seguinte: - Os que aderiam ao Evangelhos, provenientes do paganismo, tinham de se submeter também às práticas judaicas? A esta pergunta, os cristãos de Jerusalém, primeira comunidade, responderam como ouvimos: «O Espírito Santo e nós decidimos não vos impor mais nenhuma obrigação, além destas que são indispensáveis: abster-vos da carne imolada aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e das relações imorais. Procedereis bem, evitando tudo isso. Adeus» (At 15, 28-29).

Não é esta a altura para grandes explicações exegéticas. Mas o essencial percebe-se, dizendo que importava sobretudo a quem quisesse ser cristão rejeitar a idolatria e a imoralidade, ou seja, adorar a Deus apenas e ter relações corretas e límpidas com o próximo. Caríssimos amigos: isto era assim no princípio e assim continua a ser agora, na compreensão cristã das coisas. E o facto de estardes aqui, manifesta certamente a vossa convicção de que a religião de Cristo a que aderis vos levará a ter diante de Deus e dos outros um comportamento leal e correto, puro e verdadeiro. Sabeis, aliás, que a sociedade que todos temos de reconstruir agora, no sentido mais criativo e solidário do termo, só se atingirá assim, com gente vertical e honesta. Como Cristo era e ensinou a ser.

A segunda leitura foi do Apocalipse, último livro da Bíblia, porque às últimas coisas se refere. Como sabeis, foi escrito em tempos de perseguição ao cristianismo, estando o seu autor, João, preso na pequena ilha de Patmos. O horizonte natural era curto, poucos quilómetros de terra no meio do grande mar. As expectativas humanas também não podiam ser muitas, ali desterrado em tempos de perseguição. Pois é precisamente nessa altura que ele entrevê muito mais, tal como nos contou: «Um anjo transportou-me em espírito ao cimo de uma alta montanha e mostrou-me a cidade santa de Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, resplandecente da glória de Deus» (Ap 21, 10-11).

É caso para perguntar, caríssimos finalistas e irmãos todos, se também entrevedes o que ele viu… Porque tal importa muito e precisamente agora, em tempos igualmente não fáceis. E, não sofrendo aqui e agora a perseguição religiosa que ele sofria, o certo é que o horizonte não é tão largo e desanuviado como queríamos, em termos de sociedade, economia e vida em geral das pessoas.

Face a isto, podeis ficar como que bloqueados e incertos, como por vezes acontece. Mas, sendo cristãos como o autor do Apocalipse, já divisais uma cidade nova que desce do Céu; como quem refere o mundo novo que vai aparecendo, em tudo quanto parte de Deus e do seu permanente poder criador e recriador das vidas pessoais e conjugadas. É por isso que Apocalipse se traduz por “revelação”. É por isso que as vossas vidas, a vossa capacidade, o vosso empenho pessoal e solidário em criar coisas novas, revelarão a pouco e pouco o futuro que, também por vós, Deus oferecerá ao mundo.

Deixai-me repetir a última frase: «o futuro que, também por vós, Deus oferecerá ao mundo». Pode parecer ambiciosa, mas nós cristãos sabemos que é exatamente assim. Sabemos que Jesus de Nazaré parecia ser só ele, jovem artesão que a certa altura começou a falar dum “reino” bem diferente do que o seu povo via e sofria, submetido a pesadas imposições, infligidas por próprios e alheios. Dum reino ou cidade nova, constituídos por aqueles que, aceitando a única paternidade divina, necessariamente se reconhecem como verdadeiros irmãos uns dos outros, inteiramente justos e solidários. Com os que acreditaram, formou a sua Igreja, a mesma que integramos hoje. E, quando lhe fecharam totalmente o horizonte, nas grandes trevas daquele dia em que o crucificaram, aí mesmo ofereceu o seu Espírito e a sua Vida, vencedores de todas a mortes

Caríssimos finalistas: Há muita coisa que aprendestes durante os vossos cursos, muitas mais aprendereis vida fora e tantas outras que vos provocam grandes interrogações. Aliás, fazeis parte dum sociedade, a nossa, onde há mais perguntas do que respostas e interrogações do que certezas…

Mas sois cristãos, e do mesmo Cristo ouvis palavras como as que há pouco ressoaram, no Evangelho aqui lido: «Quem me ama guardará a minha palavra, e meu Pai o amará. Nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (Jo 15, 23).

E é imenso, isto que ouvimos. Se acolhermos e fixarmos bem o que Cristo nos diz, se o acolhermos a Ele, como Palavra viva do Deus vivo, o próprio Deus habitará em nós como morada sua. E cada um de nós, um após outro, casa a casa, alargará no mundo a cidade nova que João entreviu no Apocalipse e onde finalmente conviveremos todos com todos e todos para todos; a partir de Deus, fonte inesgotável de criatividade, alegria e paz.

Dois mil anos de cristianismo demonstram indubitavelmente que tal é possível. Onde qualquer discípulo ou discípula de Cristo enfrenta o dia a dia com o Evangelho na mente e no coração, conjugando-se com outros que partilham a mesma fé, o futuro começa a acontecer, mesmo onde já poucos acreditavam que tal fosse possível. Por isso vos peço, caríssimos amigos: entre tantas palavras que constantemente ouvis, entre tantas contradições que por vezes vos bloqueiam, lede e relede o Evangelho de Cristo, guardai-o no espírito e praticai-o com vontade, deixai que através de vós Deus recrie o mundo.

Sereis os primeiros a admirar-vos com o poder de Deus, que conta com a vossa colaboração, mas a ultrapassará admiravelmente depois. Como logo se escreveu nas primeiras gerações cristãs, concluo eu agora, pleno de confiança em todos e cada um de vós: «Àquele que pode fazer imensamente mais do que pedimos ou imaginamos, de acordo com o poder que eficazmente exerce em nós, a Ele a glória, na Igreja e em Cristo Jesus, em todas as gerações, pelos séculos dos séculos! Amen» (Ef 3, 20).

 

+ Manuel Clemente

Porto, Avenida dos Aliados, 5 de maio de 2013

 
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