Faixa publicitária
Homilia do senhor D. Pio Alves na Solenidade do Natal PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2013

Recriar o Natal

1. Recorda o Papa João Paulo II[1] que “a Igreja vive da Eucaristia. (…). O sacrifício eucarístico é ‘fonte e centro de toda a vida cristã’ ”. Reunidos à volta do altar, vivemos em ambiente festivo este inefável dom de Deus à Sua Igreja: a Eucaristia. Nenhuma das circunstâncias que contextualizam esta celebração pode instrumentalizar ou secundarizar o mistério de fé e de amor que celebramos.

Neste dia em que revivemos o Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, preparamos os nossos corações para o encontro com o Deus que veio e vem ao nosso encontro e nos oferece a alegria da salvação. É esse inefável mistério de amor que os cristãos revivem ao celebrar o Natal.

 

Imersos na Sociedade, não podemos deixar de pensar em todos aqueles que Deus veio procurar. E são todos. Em primeiro lugar, os marginalizados da Sociedade: aqueles que, por qualquer razão ou falta de razão, não tem lugar à mesa nem cama para descansar. São estes, como nos recordam as representações e os textos de Natal, os que mais se parecem com o Menino Deus: marginalizado, pobre, ignorado.

Por imperativo humano e cristão, não podemos deixar que os natais que os homens inventaram escondam ou apaguem a luz do verdadeiro Natal, a luz do presépio. E aí, como em todos os cenários humanos, importam as circunstâncias, mas, acima de tudo, contam as pessoas.

2. Acabamos de ser alimentados com as leituras da Liturgia da Palavra desta Solenidade.

O profeta Isaías, que escutámos na primeira leitura (52, 7-10), sobrepõe-se ao espetáculo de nostalgia e desolação que oprimia o Povo e minava a esperança. Não inventa, mas consegue falar, com fundamento, de alegria e salvação: “são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz, que traz a boa nova, que proclama a salvação (…). Rompei (…) em brados de alegria”. Lê nos sinais dos tempos mudanças na história e, principalmente, vislumbra no horizonte o cumprimento das promessas messiânicas.

A Carta aos Hebreus, na segunda leitura (1, 1-6), identifica a presença do Filho de Deus na vida do Povo de Israel e, por ele, na vida da Humanidade. E assume já a sua afirmação entre nós: “Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aso nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho”.

Por sua vez, S. João, no texto do Evangelho (1, 1-18), vai ainda mais longe. Fala-nos do Filho no seio do Pai e da nova luz que ilumina o mundo: “o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. (…) N’Ele estava a vida e a vida era a luz dos homens. (…) A luz brilha nas trevas e as trevas não a receberam. (…) Veio para o que era seu e os seus não O receberam”. À afirmação da divindade do verdadeiro homem Jesus, o Evangelista acrescenta a explicitação de vida e luz. Não veio para o que lhe era estranho: veio para o que era seu, para o que é seu.

3. O mundo e Deus não são realidades estranhas entre si ou antagónicas. O mundo, em toda a sua beleza e complexidade, é obra de Deus, confiada aos seres humanos … para todos os seres humanos. Sujeito às limitações da realidade criada, servirá melhor ou pior os desígnios de Deus conforme nós soubermos administrá-lo. E temos dado demasiadas vezes provas de ser maus gestores!

Se riscamos a assinatura de Deus na sua criação algo acabará por correr mal! Se, em nome de uma presumida liberdade, preferimos as trevas à luz não será fácil descortinar o caminho certo!

E os primeiros a ficarem de fora do palco da dignidade humana e da mais elementar realização pessoal acabam por ser sempre os mais frágeis. Quando impera a lei da selva a vitória é para os mais fortes. Os mais fracos servem apenas para divertimento e alimento dos poderosos.

Quando se apagam os traços do caminho ou se eliminam os seus marcos, mais uma vez, os transviados da dignidade humana são os que nem força têm para dizer: estou aqui! São as periferias, a que se refere com tanta frequência o Papa Francisco.

Sem pessimismos, com o realismo que convida a procurar respostas, não podemos fechar os olhos, em primeiro lugar, ao acontece à nossa volta. Uma única pessoa humana a quem, na prática, se negue a dignidade é motivo suficiente de intranquilidade. Mas não é um, não são dois: são milhares, são já multidão os famintos de pão, de humanidade, de dignidade. É urgente identificar causas; mas é ainda mais urgente potenciar respostas, ainda que sejam precárias; abrir caminhos, ainda que sejam estreitos.

Cada vez mais, temos que saber somar iniciativas, concertar soluções. O que menos interessa são protagonismos pessoais ou institucionais. Os pobres primeiro!

Este esforço não tem credo, cor política ou currículo institucional. É a resposta de todos para todos.

4. Meus irmãos, discípulos do Mestre que nasceu em Belém há dois mil anos, caros filhos da Igreja Católica:

A nossa fé em Jesus Cristo não se resume a umas periódicas manifestações religiosas; a uma vivência saudosista de acontecimentos que, em si mesmos, ficaram para trás na história. A nossa filial proximidade ao Menino Deus faz de nós, juntamente com todos os homens de boa vontade, cuidadores do mundo, construtores da Sociedade.

Recorda-nos o Papa Francisco na sua recente exortação apostólica A Alegria do Evangelho que “se trata de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais”[2].

Com as nossas limitações e defeitos, estamos chamados a ser sal da terra e luz do mundo (cf. Mt 5, 13-14). A vida e a luz, que é o Verbo de Deus, passam pelo filtro da nossa condição de discípulos. Não nos refugiemos no anonimato associal de uma cómoda cegueira. Renovemos o Natal na nossa vida. Recriemos o Natal na Sociedade.

 

Catedral (Porto), 25 de dezembro de 2013

 

+Pio Alves, Administrador Apostólico

 


[1] João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia, 1.

[2] Papa Francisco, A Alegria do Evangelho, 180.

 
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Faixa publicitária
Quer receber as nossas novidades no seu e-mail? Subscreva a nossa Newsletter especificando o seu endereço de e-mail:

D. António Francisco dos Santos fala sobre o padre Joaquim Cunha, sacerdote mais idoso de Portugal

Missa
2017-06-14 15:57:08
Terço
2017-06-14 15:56:37
Programa e Ficha de inscrição.
2017-06-02 09:34:51
Ficha de inscrição.
2017-06-02 09:34:11
Faixa publicitária
Faixa publicitária


© Diocese do Porto, Todos os Direitos Reservados.