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HOMILIA NA HOMENAGEM AO PROF. HERNANI MONTEIRO PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2014

1.A palavra de Deus hoje proclamada reconduz-nos à tonalidade destes dias vividos entre a celebração da solenidade de Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo, no passado domingo, e o tempo do Advento que vamos iniciar no próximo domingo. Anima-nos, também, o espírito do Natal, que se aproxima. Compreendemos, assim, que é feito de alegria, de gratidão e de esperança o dia que hoje vivemos.

 

 

 

Num mundo ferido pelas dificuldades da crise social, que atinge tantas pessoas e fragiliza numerosas famílias, temos todos o dever de proclamar a alegria e a esperança. Queremos anunciar tempos novos e testemunhar a certeza de “que esta é a morada de Deus entre os homens. Aqui, Deus enxugará todas as lágrimas dos nossos olhos” ( Ap. 21, 1-5).

Sentimos, como cristãos, esta confiança em Deus, em Quem acreditamos, e apercebemo-nos que para Ele se voltaram os olhares e os pensamentos de tantos que, ao longo da vida, nos deixaram um belo exemplo e um nobre testemunho.

O salmo responsorial (sl. 8), que aqui proclamamos, é um hino que canta simultaneamente a grandeza de Deus e do universo e realça a elevada dignidade do homem. O autor deste salmo convida-nos a descobrir o olhar de Deus sobre o mistério do Homem. A bela parábola “médica” do bom samaritano, aquele que cuida do homem caído à beira do caminho, que o médico e evangelista S. Lucas nos narra, no texto do evangelho de hoje , diz-nos que são muitos, no decurso da história, aqueles que cuidaram com desvelo, competência e bondade dos que sofrem (Luc 10, 25-37).

A Igreja é chamada a estar atenta, a ser acolhedora e a manifestar a sua proximidade com todos, mas sobretudo com os mais frágeis. Só assim, a Igreja será o que Jesus Cristo quer que ela seja: sacramento de salvação para a Humanidade e certeza de bênção para os que procuram Deus de coração sincero.

Os cristãos são chamados, desde o batismo a dar testemunho alegre, sereno e coerente deste olhar de Deus e deste cuidado de Deus com a Humanidade. Esta é a nossa missão e este é também o sentido mais belo, mais nobre e mais útil que podemos dar à nossa vida.

 

2. Reunimo-nos, hoje, neste lugar abençoado que é o Hospital de S. João, no Porto, para celebrar a Eucaristia. Quanto bem aqui se tem realizado, desde o dia em que este Hospital iniciou o seu trabalho, só Deus o conhece e só Ele o saberá premiar e recompensar!

A missão de todos quantos aqui trabalham inspira-se na consciência assumida de que o nosso próximo, a exemplo da parábola do Evangelho, é aquele que de nós mais precisa. Ao visitar os doentes, e tantas vezes por aqui tenho passado nessa missão, sinto que aqui habita o Evangelho e aqui palpita este amor santo de Deus pela Humanidade.

A história do passado orgulha-nos pelo bem conhecido e prestigiado e por tanto trabalho silencioso e discreto que aqui se realiza em cada dia, em cada hora e em cada minuto. Os Hospitais mereceram no decurso do tempo e merecem hoje o carinho, a dedicação e a generosidade de todos quantos servem a causa da saúde e da vida. São esses os nossos primeiros benfeitores e os nossos maiores beneméritos. Aqueles que temos o dever sagrado de lembrar e de agradecer!

 

3. Entre os maiores benfeitores de qualquer Instituição de bem-fazer estão sempre os que as dirigem e quantos nelas trabalham. Queremos, hoje, desta forma e com estes mesmos sentimentos homenagear um grande mestre e um grande médico do Porto, Professor Doutor Hernâni Bastos Monteiro. Ele é, por indicação da Faculdade de Medicina, a figura eminente da Universidade do Porto, neste ano de 2014.

A minha presença aqui tem também esse sentido: testemunhar a gratidão da Igreja do Porto e de quantos usufruem do bem realizado pela Universidade do Porto, pela Faculdade de Medicina e pelo Centro Hospitalar de S. João, ao Professor Doutor Hernâni Monteiro e a quantos ao longo do tempo têm assumido com inigualável dedicação e com reconhecida competência a esta nobre causa do bem, do saber e do serviço à vida e à saúde.

Sem a ninguém esquecer, permitam-me que faça hoje presente aqui connosco, em abençoada memória, o Professor Doutor Hernâni Monteiro que foi um dedicado amigo do senhor D. António Ferreira Gomes, ilustre e inesquecível Bispo do Porto, a quem várias vezes visitou mesmo no exílio.

O Professor Doutor Hernâni Monteiro nasceu no Porto, a 18 de maio de 1891. Matriculou-se na Escola Médico-Cirúrgica, mais tarde Faculdade de Medicina, do Porto e concluiu o Curso em 1915.

A ele se deve muito no campo do exercício, do ensino e da investigação da Medicina e muito, igualmente, no campo da criação das estruturas e da organização do serviço aos doentes na nossa cidade. Recordamos as suas palavras ao ver construído e inaugurado este Hospital de S. João, de cuja construção foi grande impulsionador: “Para o rendimento desta máquina ser eficaz, é necessário que homens competentes e devotados a ponham em movimento. É necessário pessoal, técnica e moralmente competente, capaz de trabalhar com ciência e consciência. Nunca se esqueça que a eficiência de um serviço depende mais da boa organização do trabalho do que das instalações de que dispõe”.

Os valores humanos e cristãos que todos lhe reconhecemos e o testemunho de competência, dedicação e generosidade que sempre pautaram o seu percurso de cidadão, de médico e de professor dizem-nos que devemos viver esta hora como uma hora de gratidão ao professor Doutor Hernâni Monteiro e de ação de graças a Deus, em quem acreditou. O Professor Doutor Hernâni Monteiro “era um cristão convicto que sabia compreender e perdoar; que conhecia bem o seu próximo, os defeitos e as virtudes dos homens”. Sem o Professor Doutor Hernâni Monteiro, sem a sua clarividência e determinação não teríamos esta Capela e, a partir daqui, o espírito de presença cristã e de bênção espiritual que essa decisão significa e que uma Capelania Hospitalar diariamente realiza.

Recordo as palavras do Professor Doutor Hernâni Monteiro na Oração Inaugural do edifício da Asprela que intitulou de “Exortação aos Novos”: “Eis a nossa casa levantada(…)agora o que nos cumpre é insuflar alma e vida às enfermarias, às consultas, aos laboratórios. Para que tal aconteça, contamos com o entusiasmo dos novos. Neles confio”.

Tinha razão. O seu sonho cumpriu-se. São os novos de todas as gerações, que por aqui passaram, e tantos que aqui permaneceram ao longo de toda a vida, que deram e dão cumprimento a este desejo e realizam diariamente este sonho.

O professor Hernâni Monteiro faleceu a 16 de novembro de 1963. Mas ele continua connosco neste abençoado legado que nos confiou e no exemplar testemunho de vida e de missão que nos deixou em herança.

 

4. A minha última palavra, que nem por isso deixa de ser igualmente primeira, vai neste momento para todos quantos são a nossa razão de ser, de viver e de trabalhar: os doentes e as suas famílias. Em suma o nosso próximo: aqueles a quem servimos e a quem nos dedicamos. É por eles que todos aqui estamos.

Que eles saibam e sintam que é para eles que o nosso pensamento, o nosso afeto, a nossa oração e o nosso trabalho diariamente se dirigem. Desejo a todos um tempo de bênção e de paz, de saúde e de bem. Rezo por todos e por cada um.

 

5. Que Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa Mãe, acolha a nossa oração e a nossa gratidão, transforme em vida, saúde e bênção o trabalho de todos, dê eficácia aos nossos gestos e aos nossos olhares inspirados no olhar de Deus! Que S. João Baptista, nosso padroeiro, interceda por todos nós, proteja e abençoe os nossos irmãos doentes!

 

Porto, Hospital de S. João, 28 de novembro de 2014

António, Bispo do Porto

 
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