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Eucaristia de 7.º dia por Manoel de Oliveira PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2015

1. A Palavra de Deus, agora proclamada, abre caminho ao encontro com a feliz notícia da ressurreição de Jesus, que a Páscoa nos trouxe. Ouvimos a narração dos discípulos, que foram testemunhas e mensageiros da verdade da ressurreição, como nos lembra o evangelho, agora proclamado. Assim aconteceu com os discípulos de Emaús, que reconheceram Jesus, vivo e ressuscitado, ao partir do pão (Lc 24, 13-35). Assim se passou igualmente com Pedro, quando subia ao templo, acompanhado de João, ao responder ao mendigo e doente, que jazia por terra à porta do templo de Jerusalém e lhe pediu auxílio: “ Não tenho ouro nem prata, mas dou-te o que tenho: Em nome de Jesus Cristo, levanta-te e anda” (Act 3, 1-10).

 

 

Procuramos, também nós agora, na Palavra de Deus, iluminada pela certeza da ressurreição de Jesus, a lucidez da serenidade diante da dor e da saudade, que a morte sempre nos traz. A Palavra de Deus é, também nestes momentos, nossa âncora e nosso farol. Mas mais do que isso, dá sentido à nossa esperança na vida para lá da morte; fortalece o valor insubstituível da amizade dos mais próximos, atentos e presentes, ainda mais nestas horas; sustenta a família de quem parte; transforma em bênção que permanece para sempre, a memória sagrada de quem nos deixa.

 

 

Muitas vezes a Palavra de Deus é a única voz possível a quebrar o silêncio da nossa mágoa e a retirar-nos da dor que cala a nossa voz. A Palavra de Deus é bálsamo que alivia o coração nas horas de luto.

Sei que a Palavra de Deus é para a Senhora D. Isabel, para os seus Filhos, Netos e Bisnetos, para a sua Família, e para todos nós, aqui reunidos, a luz serena que brilha como estrela na vigília da noite a anunciar que Mestre Manuel de Oliveira, de quem todos gostamos tanto, já contempla a luz da ressurreição e da Páscoa.

 

2. Manoel de Oliveira nasceu na nossa cidade, a 11 de dezembro de 1908. Tinha 106 anos de uma vida cheia de talento, de êxito e de prestígio. Acompanhou-o sempre, ao longo de toda a sua vida, a simplicidade no viver, a nobreza de caráter, o gosto pela nossa cidade, pelo nosso rio, pelo nosso país. Manoel de Oliveira era um homem de brilhante saber que se maravilhava diante da sensibilidade dos mais humildes e dos gestos mais simples!

Casado, desde 1940, com a Senhora D. Maria Isabel Carvalhais, Manuel de Oliveira encontrou sempre na sua Família o ambiente feliz que o envolveu na sua vida e no seu trabalho. Assumia o trabalho como arte caldeada na arte da vida. Antes de ser mestre internacionalmente prestigiado na arte do cinema foi mestre exemplar na arte da vida que nos legou, como primeira e sublime herança.

O gosto pela natureza, a forma de compreender e respeitar a dignidade humana e o modo de intuir os complexos contextos da sociedade atual deixam-nos, através dos seus filmes, interpelações profundas e oportunos desafios para percebermos o rumo do futuro da humanidade.

Tantas vezes lembrou que era “preferível morrer a perverter a dignidade. Sem dignidade não há identidade. E sem estas duas não há liberdade. E a liberdade impõe respeito pelo próximo”. Que belo programa de vida e de missão, Manoel de Oliveira deixa ao mundo!

 

Manoel de Oliveira faleceu em plena semana santa, no limiar da celebração dos mistérios da morte de Cristo. Recordamo-lo, agora como o faremos sempre, como verdadeiro “ato de primavera” e certeza inabalável da vida nova que a Páscoa já lhe deu. Creio que esta é a melhor maneira de merecermos este grande portuense, ilustre português, prestigiado mestre, realizador e cineasta, que é Manoel de Oliveira.

 

No momento em que pessoalmente e em nome da Igreja do Porto, ao saber da sua morte, lhe quis manifestar a minha presença e a minha oração, assim como a comunhão na dor com a sua Família, ouvi um dos seus Filhos dizer-me,por entre a tristeza da dor e a paz que brota da fé: “o nosso Pai, partiu serenamente”. Senti nesta hora e neste testemunho conforto e paz, porque partem sempre assim os que acreditam na Vida.

 

3. Uma vida inteira não se encerra numa palavra, não se fecha na memória, nem tão pouco se devolve ao tempo. Uma vida dada é um tesouro que se guarda, é uma semente que germina, é uma luz que irrompe na manhã, é o anúncio definitivo da Páscoa, é a certeza perene da ressurreição. Assim a vida de Manoel de Oliveira.

 

Deus foi cinzelando em Manoel de Oliveira , desde o berço, traços indeléveis da caráter, de valor e de talento que fizeram dele um peregrino do absoluto, incansável buscador da beleza e da perfeição, aparentemente muito distantes do nosso alcance humano, mas tantas vezes tocadas de perto pelas coisas belas que a arte e o talento, como sementes do divino, criam, recriam e realizam. Foi este o conselho que Manoel de Oliveira recebeu do Papa Bento XVI, em resposta à belíssima saudação que lhe dirigira em nome das homens e das mulheres de cultura de Portugal, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a 12 de maio de 2010. “Os artistas realizam coisas belas. Procurai fazer da vossa vida lugares de beleza” (Bento XVI).

 

Manoel de Oliveira manifestou à sua Família o desejo de ver colocadas, entre outras, junto ao seu espólio pessoal, a confiar à Fundação Serralves, na futura Casa do Cinema, duas fotografias suas: uma com o Papa João Paulo II, em Roma, de quem era profundo admirador, (que morrera também ele a 2 de abril, dez anos antes) e outra com o Papa Bento XVI, em Lisboa, para marcar este encontro.

 

Numa das entrevistas recentes que deu, confidenciou que tinha “um arquivo gigante de ideias que ainda não pusera em prática”. Pertence-nos, hoje, a todos, mas sobretudo a nós portuenses e às gerações futuras, aprender na escola deste grande Mestre que soube associar o talento e a simplicidade, o rigor e a arte, o sonho e a criação, a família e o trabalho, o amor à sua cidade-mãe e a dimensão do mundo, que a universalidade da sua obra granjeou.

 

E como a “morte, segundo as palavras de Manuel de Oliveira a Frei Bernardo Domingues, seu dedicado amigo, é como uma porta que, quando se abre, é para alguma coisa que vale a pena”, queremos agradecer a Deus a vida e a obra de Manoel de Oliveira, porque acreditamos que para ele já se abriu a porta da ressurreição e da vida para sempre.

 

 

 

Porto, Sé Catedral 7 de abril de 2015

António, Bispo do Porto

 
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