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Homilia nas Ordenações de Diáconos e Presbíteros PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2015

1. “Vai, profeta, ao meu povo”(Am 7, 15). Assim nos diz a bela mensagem de Amós, hoje aqui recordada na primeira leitura. Amós não era profeta, nem filho de profeta. Era apenas pastor, habituado à vida simples dos campos, ao cuidado dos rebanhos e ao trabalho dos sicómoros. Para responder a Deus não reclamou direitos. Não usurpou pergaminhos antigos. Acolheu a surpresa do chamamento de Deus. Disse sim a Deus, sem pedir explicações acrescidas.

 

O mesmo chamamento sentiu Paulo, mais tarde. Também ele estranhou o modo e o momento do chamamento divino. Ia a caminho de Damasco. Levava consigo a missão de repor a ordem do judaísmo e de retirar os cristãos da cidade. Paulo percebeu que, neste encontro com Deus que intercetou o seu caminho, começava para ele uma vida totalmente nova.

 

 

O mesmo já se tinha passado com os discípulos de Jesus. Os doze mais próximos de Jesus, os apóstolos, acompanhavam Jesus, em permanência. Conheciam as mesmas aldeias e cidades, aprenderam os hábitos e ouviram os ensinamentos do Mestre. Agora começava para eles o tempo novo da missão. E os apóstolos partiram para onde Jesus os enviara. Realizaram obra notável aos seus próprios olhos. E regressaram felizes a contar a Jesus o bem realizado.

 

A Palavra de Deus, que hoje aqui escutamos, é para todos nós. Foi proclamada, rezada, contemplada e refletida em todas as comunidades e celebrações da nossa diocese. Convenhamos, todavia, que nesta Sé Catedral, ela tem uma ressonância diferente e encontra como principais destinatários o Diogo, o Dinis e o Vítor, que vão ser ordenados diáconos, rumo ao presbiterado, e o João Emanuel, o José Joaquim, o Mário, o Prabesh, o André, o Igor e o Jorge, que vão ser ordenados presbíteros.

 

2. Partilho convosco, caríssimos ordinandos, a surpresa sempre nova de ser chamado pelo Senhor. Esta surpresa possui um contexto concreto com nome de pessoas, de lugares e de tempos, que Deus e vós conheceis.

 

Convido-vos, por isso, a agradecer-lhes o dom da vida, a graça da fé, a surpresa da vocação, o encanto do sonho e o caminho percorrido desde a família, às comunidades cristãs, aos Seminários e à Universidade Católica. Esta é uma hora de gratidão, que traduzo em oração, por vós, ao bom jeito de Paulo na segunda leitura: “Bendito seja Deus porque vos abençoou em Cristo. N’Ele vos escolheu, antes da criação do mundo. Ele vos predestinou… e deu-vos a conhecer o mistério da sua vontade” ( Ef 1, 3-10).

 

Sede, a partir de hoje, profetas de Deus, para falar sempre e só em nome d’Ele. Sois voz de Deus. Sois, também, mãos de Deus, trabalhadores incansáveis deste encontro de Deus com o seu povo, alavancas de Deus que erguem o mundo e mesas de  Deus que multiplicam a fraternidade sempre que repartem o pão aos pobres.

 

O Senhor Jesus escolheu-vos para dardes continuidade à Sua missão de Mestre, de Sacerdote e de Pastor. Para isso, procurai ser livres, felizes e transparentes, na cor límpida da vossa alma; generosos no ardor missionário do vosso coração; serenos na obediência, que é fonte de comunhão com Deus e com a Igreja. Sede perseverantes na oração e na contemplação de Deus, porque aí mora o segredo da vossa fidelidade. A oração é, sempre, a escola do amor que sentimos por Deus, pelos outros, pelo mundo.

 

Vivei com o presbitério diocesano ou na vossa Ordem e Congregação religiosas a beleza da fraternidade, o gosto de ser sacerdotes com os outros e também para os outros, o encanto de seguir Jesus em companhia, não individualmente mas juntos, na variedade dos vossos dons, na beleza dos vossos carismas e na diversidade das vossas personalidades.

 

Peço para vós a paz, sempre, em tudo e com todos. Paz convosco, com Deus e com o povo a quem ides servir. Só a paz que Deus dá vence o medo, sustenta a eficácia, afirma a verdade e espelha a beleza da nossa missão.

 

Caminhai com o povo, caríssimos ordinandos, como profetas de Deus e como discípulos de Jesus, com simplicidade e com humildade. Deixai-vos trabalhar pela pedagogia pastoral que Jesus nos ensinou, agora renovada e continuada no horizonte alargado da missão. Esta é uma hora de bênção para a Igreja do Porto, para a Ordem Beneditina e para a Congregação dos Sacerdotes Dehonianos.

 

O Senhor cuida de nós. Só Ele basta. Ele acalenta os nossos sonhos e alivia os nossos cansaços. Ele nem sequer recusa lavar os nossos pés, para que diariamente possamos caminhar com novas forças. O Senhor lava-nos e purifica-nos, se recorrermos também nós à sua misericórdia. Vivei sem medo e sem culpas para servirdes na alegria o povo que Ele vos confiará. Deus estará convosco sempre até ao fim dos tempos.

 

3. Uma celebração de ordenações é sempre um convite a olhar em frente. Os primeiros dias de julho são marcados na Igreja do Porto pela celebração do aniversário de muitas ordenações. Muitos sacerdotes têm vindo aqui a esta mesma Sé, reunidos à volta deste único altar, para recordar a hora primeira do seu ministério sacerdotal. Trazem consigo muita gratidão a esta Catedral e à Igreja que ela significa e congrega. Vêm sobretudo com o desejo de daqui repartirem para caminhar sempre em frente com o brilho do primeiro olhar e com as forças retemperadas para novos desígnios de missão. Agradeço-vos o bem que me tem feito este vosso testemunho, caríssimos irmãos sacerdotes do nosso presbitério do Porto.

 

Se olhardes e caminhardes em frente, também vós, caríssimos ordinandos, a exemplo de tantos que aqui foram ordenados, antes de vós, e que hoje vos acolhem em tão grande número, com tanto afeto e com expressiva beleza fraterna, encontrareis, como eles, a mesma alegria da missão recebida de Jesus.

 

Só é possível olhar em frente se partirmos do encontro pessoal com Jesus, vivo e ressuscitado, e nos deixarmos olhar pelo olhar de Deus. Peço-vos que diariamente façais experiência deste encontro com Cristo. E aí, neste encontro pessoal com Ele, diante do sacrário, ou na celebração da Eucaristia e dos outros sacramentos, nasce a disponibilidade para a missão, neste treino pastoral que faz de vós discípulos missionários, homens livres, generosos e felizes.

 

4. Sois ordenados diáconos e presbíteros para levardes a Alegria do Evangelho ao nosso mundo, tantas vezes triste e crispado. Anunciai a Alegria do Evangelho como mensagem válida, plena de novidade e de encanto. O mundo só muda quando se transformar por dentro.

 

A este esforço da humanidade e de transformação do mundo concretamente no nosso País, a braços com inúmeras dificuldades, e na Europa, marcada por novos e inesperados conflitos e incertezas face ao futuro, é imprescindível o testemunho da sobriedade, da justiça, da solidariedade e da limpidez da alma cristã, nesta matriz cultural onde o futuro da Europa se deve enraizar de novo.

 

Queremos todos fazer da alegria, da esperança e da misericórdia a nossa missão não só inscrita no Plano diocesano de Pastoral anteontem apresentado para a nossa diocese mas impressa nos nossos pés para que deixemos marcas de rumo no caminho que percorremos. É esta suave alegria de evangelizar, a que o Papa Francisco nos vai habituando com nova linguagem e gestos proféticos, que queremos viver no Porto.

 

Desejamos partilhar a bênção deste dia com outras Igrejas vizinhas e irmãs que, também hoje, celebram Ordenações de novos presbíteros. Vivemos, igualmente, esta hora em comunhão com o Papa Francisco e acompanhamo-lo com a nossa oração e gratidão nesta corajosa visita pastoral à América Latina. O Papa Francisco foi ao encontro do seu continente natal para dizer que a alegria, a esperança e a misericórdia, nascidas no Evangelho das bem-aventuranças e concretizadas nas Obras de misericórdia podem mudar o mundo.

 

5. Um dia de ordenações abre caminho para a profecia, para a conversão de vidas por inteiro, para a certeza de que novos servidores da Alegria do Evangelho nascem em cada dia nas nossas comunidades. Esta é uma hora de esperança, de encanto e de empenho na pastoral vocacional na nossa Diocese e de gratidão pelo belo trabalho realizado pelos nossos Seminários.

 

Confio-vos, caríssimos ordinandos, assim como as vossas famílias, comunidades e Seminários a Nossa Senhora, Mãe de Deus e nossa Mãe. Ela, tudo pode, é Mãe de Deus! Ela, tudo deve, é nossa Mãe!

 

Ides receber, depois da ordenação e antes de partirdes em missão, a bênção de Deus, a bênção solene desta celebração. Peço-vos que me abençoeis também a mim e a esta amada Igreja do Porto.

 

Porto, Sé Catedral, 12 de julho de 2015

António Francisco, Bispo do Porto

 
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