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Homilia na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2016

1. Iniciamos o Novo Ano, aconchegados pelo ambiente de festa e envolvidos pela alegria que o Natal nos deu, ao celebrarmos o nascimento de Jesus, Filho de Deus.

Realça-se na liturgia desta celebração do dia primeiro do ano a figura da Mãe de Jesus.

Este é o dia para que, ao longo de todo o ano, a humanidade, que nós somos, possa encontrar a presença divina impressa na ternura de Santa Maria, Mãe de Deus.

Pensamos, neste dia, com particular afeto e sentida gratidão em todas as mães, as nossas mães e as mães em todo o mundo: mães felizes de filhos felizes; mães ansiosas em momentos de dúvidas e de interrogações face ao futuro dos filhos; mães feridas pela dor diante da doença ou da morte dos filhos; mães sem trabalho, sem terra e sem teto para os seus filhos; mães heroicas que vencem desânimos em horas de incerteza e de insegurança; mães discretas mas presentes, mesmo quando os filhos estão distantes.

 

Se não respeitarmos as mães dificilmente teremos quem cuide da humanidade. Se não afirmarmos o valor sagrado e não defendermos a missão insubstituível da maternidade e da paternidade colocamos em risco a essência da vida e pomos em perigo o futuro da própria humanidade.

As mães são berço e regaço; são abrigo e escola; são dom que não se retribui e bênção que nunca se esgota; são porta de casa aberta para nos acolher e mesa de família preparada para partilhar o pão, a alegria, a serenidade e a paz. Obrigado mães!

 

2. A Igreja começa, cada ano, sob o signo da paz, vivendo desde 1967, por vontade expressa de Paulo VI, o dia 1 de janeiro como Dia mundial da Paz.

O Papa Francisco, a exemplo dos seus antecessores, enviou-nos uma oportuna mensagem para este dia, sob o título: “Vence a indiferença e conquista a paz”. Ele dirige esta mensagem a todos nós, consciente de que “a paz é dom de Deus, confiado a todos os homens e mulheres, que são chamados a realizá-lo” ( Mensagem, n.º 1).

Nesta mensagem, o Papa Francisco não esconde, não ilude  nem ignora as muitas situações dolorosas que a humanidade viveu em 2015. Basta lembrar os atentados terroristas de Paris e de Bruxelas, as guerras intermináveis da Síria, do Iraque ou da Ucrânia, as perseguições dos cristãos martirizados na Nigéria, na Índia e em tantos outros lugares do mundo e as vagas contínuas de refugiados, que batem à porta da Europa.

Apesar de tudo isso, o Papa convida-nos a “conservar as razões de esperança”, a “vencer as formas de indiferença”, a não deixar “ameaçar a paz pela indiferença globalizada”, a sabermos passar “da indiferença à misericórdia pela conversão de coração”, a “fomentar uma cultura de solidariedade e misericórdia para se vencer a indiferença”, consciente de que a paz só pode ser “fruto de solidariedade, de misericórdia e de compaixão” ( Mensagem para o Dia da Paz, 2016).

 

3, Somos, igualmente, convidados pelo Papa Francisco a viver este ano com o espírito do Jubileu da Misericórdia e somos “chamados a cumprir gestos concretos, atos corajosos a bem das pessoas frágeis da sociedade, como os reclusos, os migrantes, os desempregados e os doentes (Mensagem, n.º 8).

Bastava que houvesse na nossa cidade apenas um recluso, desempregado, refugiado, emigrante ou doente, para que tudo fizéssemos por ele. Mas são mais de 3. 500 os reclusos nos estabelecimentos prisionais sedeados na área da nossa diocese; os Centros Hospitalares do Porto, Vila Nova de Gaia, Matosinhos, Penafiel e de Santa Maria da Feira estão ocupados por inteiro e ás vezes mesmo superlotados de doentes; aumentou a emigração de gente nova, cheia de talento, que partiu para o estrangeiro, levada pelo sonho e pela aventura mas sobretudo pela falta de trabalho em Portugal; continuam a chegar migrantes do interior do nosso país e imigrantes vindos de outros países do mundo; começamos já a receber as primeiras famílias de refugiados da Síria, a quem devemos acolher como irmãos e respeitar na sua dignidade e diferença; temos pobres que diariamente batem à porta das nossas casas, paróquias e instituições a pedir pão, a procurar casa e a sonhar trabalho.

Felizmente não faltam nesta nossa terra de gente solidária, pessoas de bem em grande número, com imensa generosidade e reconhecida competência, que trabalham com alegrias em todas as fronteiras de missão, a que se juntam milhares de voluntários criativos, bem formados e interventivos. Este é, por isso, um dia de gratidão e de bênção! Uma bênção pedida a Deus e d’Ele recebida, como nos lembrava, na primeira leitura, o Livro dos Números: “O Senhor te abençoe e te proteja. O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável. O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz” ( Num 6, 22-27).

 

4. O Papa Francisco afirma, ao abrir a sua mensagem: “Deus não é indiferente; importa-lhe a humanidade! Deus não a abandona!”(Mensagem, n.º 1). Seja assim connosco, também: importa-nos a humanidade! No seu melhor e no seu pior!

Queremos servir a humanidade, chão e tempo por nós habitado, com gestos de bondade, de misericórdia e de compaixão! Com a procura do perdão, o esforço da reconciliação, a magnanimidade da misericórdia e o dom sublime da paz.

Importa-nos a humanidade no melhor do seu coração em tanta gente de bem, em tantos servidores irmãos dos pobres, em tantos governantes e educadores, genuinamente atentos e permanentemente preocupados com a dignidade humana e com o bem comum.

Importa-nos a humanidade na capacidade encontrada em tantas instituições e pessoas para ir a todas as periferias, sentar à sua mesa os pobres, cuidar dos doentes, alavancar os frágeis, corrigir os que erram e sofrer com paciência as injúrias do próximo.

Importa-nos a humanidade porque tocamos aí a carne sofredora de Cristo e o peso doloroso da cruz redentora nos que sofrem a indiferença, a infâmia e o ódio.

Importa-nos a humanidade quando corre sangue humano no interior de casas agredidas pela violência doméstica, quando sofrem os inocentes magoados pela pobreza, pela doença, pela injustiça e pela guerra, porque Deus não a abandona, mesmo que nos possa parecer que nessas horas está distante, silenciou a sua voz ou não ouve o nosso clamor.

Importa-nos a humanidade, esta humanidade, de que é feita também a Igreja, esta amada Igreja do Porto, convidada a viver um Ano santo da Misericórdia, decidida a ser Igreja de discípulos missionários, compassivos e pacíficos  e determinada a fazer da “Alegria do Evangelho a nossa Missão” e a proclamar: “Felizes os misericordiosos!”

Importa-nos a humanidade, porque na nossa humanidade está Deus, que nos enviou o seu Filho e O fez membro da humanidade que nós somos.

 

5. Rezo e rezamos todos a Santa Maria, Mãe de Deus e Rainha da Misericórdia e da Paz, para que nos conceda um ano de bênção e que aconchegue a si os filhos mais frágeis e pequeninos, acalente os mais ansiosos e desanimados, fortaleça os mais débeis e inconstantes. recompense os misericordiosos, incentive os construtores da paz e faça surgir no terreno fecundo da nossa diocese servidores da messe.

Faço minha e de todos nós a oração do Papa Francisco, ao concluir a sua mensagem para este dia: “Confio à intercessão de Maria Santíssima, Mãe solícita pelas necessidades da humanidade, para que nos obtenha de Seu Filho Jesus, Príncipe da Paz, a satisfação das nossas súplicas e a bênção do nosso compromisso diário por um mundo fraterno e solidário” ( Mensagem n.º 7).

Feliz e abençoado Ano Novo!

Porto, Sé Catedral, 1 de janeiro de 2016

António, Bispo do Porto

 
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