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Nota Pastoral - Obra da Rua e Padre António Baptista dos Santos PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Notas Pastorais

 

“Chegou a hora de dar notícia de uma Obra que há muito trazemos no peito, a saber: um abrigo onde possam morrer cristãmente legiões de inválidos sem morada certa. Vai-se-lhe dar o nome de Calvário” – anunciava o Padre Américo no Coliseu do Porto em 2 de Junho de 1955.

O “Pai Américo” já “sonhara aquilo que Deus queria”: uma “obra de doentes para doentes”; a oferta à Obra da Rua da quinta da Torre, em Beire (Paredes), foi o momento do anúncio. Depois foi o idealizar uma aldeia “onde pudessem viver” aqueles que, de outra forma, também não teriam “onde morrer”. O arquiteto riscou e a Obra “começou a nascer”, com cerca de 100 operários a dar as suas mãos a um coração de caridade ativa e de saber crente.

 

A primeira moradia foi a casa “Graças a Deus”, destinada a homens doentes mas que haviam de ajudar e confortar os vindouros. Depois, a casa “Esperança” para casal de inválidos ou senhoras. Seguiram-se instalações para cozinha, sala de jantar, dormitórios, moradias térreas, pavilhões, edifício dos serviços médicos, salão de convívio, espaços de repouso e paz… De um velho espigueiro, “monumental em seus cogumelos de granito e colunas oitavadas”, brotou a Capela (casa do Pão vivo), servida por larga escadaria, que trepa sobre tapete de relva macia - a sua inauguração, em 16 de Julho de 1957, marcou o primeiro aniversário da morte daquele que sonhou e amou em primeira mão o Calvário.

Desde então - e sempre - o Padre Baptista tem sido a alma daquela aldeia, acolhendo, inovando, orientando e dando-se. Um Pastor, simples e determinado, que está sempre no meio das suas ovelhas, conhece-as nas suas histórias, trata a cada uma pelo seu nome e, quando “chega a hora”, o Padre Baptista recomenda-as ao Pai.

Ao longo de todos estes anos, mais de mil pessoas ali encontraram guarida: gente sem família, rejeitados que se arrastavam, paralíticos, vítimas de uma pobreza escandalosa, doentes incuráveis e deficientes profundos (a primeira casa em Portugal para ambas as situações), pessoas acamadas e com doenças não identificadas, “lixo” que a sociedade repelia e que tudo fazia por esconder.

Os portões da aldeia estão continuamente abertos para receber quantos, uma vez acolhidos, se veem renascer - apenas os pedintes preferem seguir o seu caminho de porta em porta. Quantos por ali ensaiam uns passos que nunca antes deram, uma atividade que se julgara impossível, uns abraços que jamais tinham sentido e uns sorrisos que, doravante, permanecerão sentidamente retidos! Verdadeiros milagres...

Também, lá, onde encontraram repouso reconfortante mas em família, muitos “entregaram o seu espírito nas mãos do Pai”). Partiram com a certeza de que a “família”, que ali deixavam, os perpetuaria nas afetuosas orações do Padre Baptista.

Presentemente, residem naquela “aldeia” cerca de 70 pessoas. Respira-se lá toda uma filosofia de vida: “os doentes tratam dos sãos” para cultivar a saúde, não a doença. Como voluntários, são bem-vindos aqueles que “precisam do Calvário” (não é o Calvário que precisa deles). E são bastantes: só ao fim de semana, habitualmente, cerca de duas dezenas ali cuidam do seu espírito enquanto, entre outros serviços, dão banhos e recebem sorrisos.

Do Estado também por lá chegam pedidos de acolhimento. E mais nada. “Nem um tostão” (houve um Ministro que para ali destinou “cinco contos”, mas logo lhe foram devolvidos). Mesmo assim nunca falta nada – também nada se perde, tudo se aproveita. E quanto maior é a crise tanto maior parece a abundância!

“Temos obrigação de meditar nestas coisas”, concluía o Padre Américo no Coliseu...

Este conselho do Padre Américo, que traduz com inteireza a sua acção, compreendeu-o e interiorizou-o absolutamente o Padre Baptista. Tem feito da sua vida uma generosa dádiva àqueles irmãos mais frágeis com os quais convivemos quotidianamente, mas que nem sempre merecem a atenção de cada um de nós e da sociedade em geral.

Abdicou de muita coisa e talvez tenha abdicado muito de si, buscando apenas servir. Nunca foi fácil em tempo algum e muito menos na nossa contemporaneidade, assumir coerentemente aquilo em que se acredita e preparar-se para arcar com todas as consequências que daí resultam: o reconhecimento, a incompreensão, a humilhação e a nossa própria desadequação.

Somos assim desafiados a salvaguardar este testemunho da única forma que fará a justiça justa, ou seja, preservando o Calvário de Beire, obra de um Homem Bom.

Há momentos em que parece que só nos cabe o direito de rezar e apenas nos assiste a liberdade de tudo colocar no coração de Deus. Rezo também hoje com o Padre Américo pela Obra da Rua, pelos seus rapazes, pelos seus doentes, pelos seus beneméritos e pelos seus padres: “ Senhor Jesus, eu não troco por nada deste mundo a suprema ventura de curar com panos de linho os membros doentes do Vosso Corpo, considerados sem cura!” (Pão dos Pobres, 3º ed., 3º vol., p.214).

Isto mesmo nos pede o Papa Francisco, quando nos diz: “ Às vezes sentimos a tentação de ser cristãos, mantendo uma prudente distância das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros.” (Evangelii Gaudium, n.º 270)

 

Porto, 24 de março de 2017

António, Bispo do Porto

 
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