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Homilia na Missa Crismal PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Documentos - Homilias 2017

1.A Igreja do Porto reúne-se hoje na Catedral, igreja-mãe da diocese, como povo de ungidos pelo baptismo, pelo crisma e pela ordenação. A Missa Crismal celebrada na manhã de quinta-feira santa é lugar de graça e tempo de encontro do bispo com o Presbitério, pela renovação das promessas sacerdotais, pela bênção dos óleos dos catecúmenos e dos enfermos e pela consagração do óleo do crisma. A Missa Crismal é o pórtico sagrado que nos abre caminho para a celebração do Tríduo Pascal e para o anúncio feliz da Páscoa.

A Palavra de Deus, colocada na boca de Isaías, anuncia o Messias e a missão que Ele há-de realizar. A Palavra de Deus, auto-proclamada pelo próprio Messias, na sinagoga, séculos depois, anuncia, a cada um de nós, uma vocação irrenunciável: anunciar a alegria do Evangelho é a nossa missão.

 

A Palavra é eterna. A missão de a proclamar, intemporal. Contudo, para ser entendida, requer tradução nas circunstâncias históricas humanas concretas. A acção do Espírito, sobre Isaías, sobre Jesus, sobre cada um de nós, é o apelo permanente que Deus nos dirige para que, a cada tempo e em cada lugar, no nosso tempo e no nosso lugar essa tradução aconteça nos átrios do mundo, na realidade temporal e no íntimo do coração humano.

Quem são os cegos, os oprimidos, os cativos do nosso tempo? Porque o são? Que causas pessoais, culturais, sociais ou políticas os geraram? O Evangelho tem o homem como destinatário e a sua libertação como objectivo.

A uma fé transmitida por herança e a um paradigma de uma época social homogénea sucede um tempo novo, que avança depressa, que muitas vezes parece incapaz de sentido e clama, mesmo assim, e sem muitas vezes o saber, por Deus e pela Sua Palavra.

 

2. O tempo que vivemos é este tempo inteiramente novo. Exige uma renovada evangelização, uma nova atitude, novos modelos de transmissão da Palavra de Deus, e mensageiros, ungidos por Cristo e abertos aos apelos do Espírito.

O trajecto histórico dos últimos séculos mostra que a cultura ocidental, talvez por inspiração bíblica, mas dela, cedo, desviada, acabou por seguir os caminhos da secularização. As transformações sociais e políticas mais recentes na Europa reduziram o espaço de influência da religião. Há quem imagine balizar uma fé sem possibilidade de habitar o mundo e sem interferir na sua cultura.

O individualismo é um das marcas deste nosso tempo. Valores e convicções são muitas vezes costurados por medida. E porque estranhamos, depois, que nasça no coração humano o medo do futuro e irrompa o terror da morte em tantos lugares do mundo?

O individualismo alastra, na mesma medida em que se asfixia o sentido de pertença, a solidariedade, a construção do bem comum, a justiça social, a ousadia da caridade, a beleza da doação radical a Deus e do serviço aos irmãos e o exercício generoso do poder entendido como serviço nobre, gratuito e feliz.

Um dos maiores desafios que, hoje, se colocam à Igreja consiste em procurar ajudar o mundo a redescobrir o valor e a dignidade da pessoa humana como lugar de abertura aos outros, à família, à comunidade e a Deus. É este o imperativo irrenunciável do Evangelho de hoje e o rumo da vida pastoral no futuro de uma Igreja que é mãe.

Estamos num tempo de viragem civilizacional. Difícil, exigente, mas desafiante e habitado pela esperança cristã. É um tempo em que se esboça a possibilidade de um reencontro entre fé e vida, entre Deus e mundo, entre cultura e cristianismo. O fenómeno religioso não desapareceu das nossas sociedades. Bem pelo contrário: nasce, renasce a afirma-se com impressionante novidade em tantos sinais cheios de vigor e de encanto.

 

3. Este processo de reconciliação da sociedade secular com a Igreja representa um desafio maior para todos os cristãos, mas muito concretamente para cada um de nós irmãos sacerdotes. A reaproximação da Igreja à sociedade deste tempo, requer a credibilidade testemunhal da própria Igreja, a nossa plena identificação com Cristo e a nossa paixão pelo Evangelho.

O testemunho é a chave da credibilidade, lembra-nos o Papa Francisco. O Papa Francisco sabe que a Igreja tem, nesse campo e neste desígnio de missão, um papel irrenunciável. Não para que ela se salve a si mesma, mas para que ela salve o mundo. Afirma-o na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium.

O Papa pede-nos verdade. Pede-nos santidade de vida. Pede-nos coerência com o Evangelho. Pede-nos que sejamos homens de Deus e de oração. Pede-nos transparência. Pede-nos misericórdia para acolher, sem reservas, aqueles que andam distantes ou que, por circunstâncias de vida, se afastaram dos sacramentos ou da vida comunitária. Pede-nos caridade no trato com todos, sem acepção de pessoas. Pede-nos que sejamos definitivamente capazes de fazer da periferia o centro da vida pastoral, decididos a estabelecer relação com a cultura, com as instituições sociais e políticas em ordem a melhorar a vida das pessoas e da sociedade. Pede-nos que sejamos capazes de construir comunidade alicerçada na unidade e na comunhão. Pede-nos que vivamos a vida apaixonados por Cristo e pela missão de O dar a conhecer aos homens e mulheres do nosso tempo, como rosto de Deus, que liberta e plenifica a vida humana. Pede-nos que sejamos homens serenos, plenos de bondade e de mansidão, livres de ambições pessoais e despreocupados com as seguranças terrenas. Pede-nos sobriedade de vida e um estilo simples, afável, delicado, próximo, amigo, feliz, capaz de caminhar com os outros, ao seu lado, sem sobranceria. Pede-nos que saibamos consolidar relações pacíficas, saudáveis e edificantes com todo os que se aproximam de nós. Pede-nos que conservemos, apenas, o essencial, o que pode servir a experiência da fé e o serviço da caridade. E isso nos bastará porque só Deus nos conforta, nos santifica e nos faz servidores simples e felizes dos irmãos.

O testemunho é a chave para que a Igreja possa ser uma mais-valia para a sociedade dos homens. O testemunho obriga-nos, como Igreja, a assumirmos a alegria do Evangelho como nossa missão. O testemunho é o rosto visível da caridade pastoral, essência do nosso ministério, que os homens e mulheres do nosso tempo esperam de nós sacerdotes.

O Evangelho tem de ser o nosso manual de instruções. Ele é a grande escola de humanidade. Diante de uma aparente diluição do religioso num mundo secularizado, esconde-se a insuperável saudade de Deus, irrompe uma vital confiança em Cristo e afirma-se em sinais novos e belos o respeito pela missão insubstituível da Igreja na construção de um mundo melhor.

 

4. A Missa Crismal revela, por seu lado, aos nossos olhos a imensa beleza de todo o Povo de Deus, povo consagrado e reino de sacerdotes, na variedade dos seus dons, na diversidade dos seus ministérios e na raiz comum do baptismo.

Com a renovação da nossa fidelidade aos compromissos sacerdotais e com o gosto de vivermos na comunhão do presbitério ao serviço das nossas comunidades, sustentamos os nossos irmãos na igual fidelidade aos seus deveres humanos, familiares, profissionais, cívicos e cristãos.

Convido-vos, irmãos sacerdotes, a que sintamos como dirigida a nós aquela palavra do Evangelho de Lucas, referida a Jesus: «Todos tinham os olhos fixos nele» ( Luc 4, 20). Vejo nesse olhar das comunidades cristãs e do mundo que nos rodeia o desejo de encontrar na Igreja o testemunho vivo de Jesus Cristo e o sinal de esperança que procuram naqueles que a servem.

Todos devemos muito aos Seminários que nos formaram, às famílias donde vimos, às comunidades que nos acompanharam no decurso do tempo, mas aprendemos diariamente imenso com o exercício do próprio ministério e com a fraternidade sacerdotal experimentada com todo o presbitério.

 

5. Esta é a hora para o vosso bispo e os irmãos bispos que comigo servem esta amada Igreja do Porto vos dizermos todo o nosso renovado afecto e vos agradecermos sensibilizados o acolhimento sempre dado às propostas pastorais e a resposta tão generosa oferecida aos apelos e pedidos de colaboração que a vós e as comunidades ainda recentemente vos fizemos. Que Deus recompense na abundância das Suas bênçãos a vossa inigualável generosidade e a vossa exemplar comunhão.

Damos graças a Deus pelo dom dos novos sacerdotes que participam pela primeira vez, como membros do nosso presbitério, nesta Missa Crismal: Padres Diogo Barbosa, Filipe Azevedo, Júlio Dinis e Vítor Ramos, ordenados, em julho passado, presbíteros para o serviço da Igreja do Porto. Partilhámos igual esperança com os Missionários Dehonianos e com os Sacerdotes Passionistas pelos novos sacerdotes Antonino de Sousa e Gregório Valente, aqui ordenados e oriundos, também, da nossa diocese.

Neste arco do tempo partiram ao encontro de Deus nove membros do nosso Presbitério: Padres António Ferreira, Delfim Mesquita, Heitor Vieira, Joaquim Casaca, Manuel Pereira, Rodrigo da Costa e Monsenhores Alexandrino Brochado, Ângelo Alves e Celestino Ramos.

Lembramos em comunhão com as suas dioceses de origem e congregações religiosas os outros irmãos sacerdotes residentes na diocese falecidos ao longo deste mesmo tempo: Cónego Mendes de Castro, e Padres Henrique Morgado, Inácio Oliveira (O.S.B), Joaquim Monteiro e Mário de Negreiros (O.F.M. CAP), João de Freitas Ferreira e João Ferreira (C.M.F.), Joaquim Domingues e Manuel Valença (O.F.M), Adelino Ornelas, Agostinho Sousa, Avelino de Almeida, António Correia e João Baptista (C.M.) e João Cabral (S.J.).

Queremos anunciar-vos o jubileu de 60 anos de ordenação presbiteral dos Padres Albino Fernandes, Manuel Paiva, Manuel António Pereira, Carlos Ribeiro, Elias Rocha, Joaquim Sevilha, António Soares e Frei Bernardo Domingues (O.P.), e de 50 anos de ordenação episcopal de D. Manuel Vieira Pinto e de ordenação presbiteral do Cónego Alfredo Leite Soares e dos Padres Arlindo Ribeiro da Cunha, Florentino Fernandes Sousa e Sebastião Hernâni de Carvalho, assim como o jubileu dos 25 anos de ordenação dos Padres António Barbosa Ferreira, Fernando Ferreira da Silva e José Oliveira da Silva, membros do nosso Presbitério. Associamo-nos igualmente ao jubileu sacerdotal de 50 anos de ordenação dos Padres Adelino Simões e Anselmo Borges  da Sociedade Missionária, José Barros de Oliveira, sacerdote claretiano, e António Baptista e Lucílio Neves, sacerdotes redentoristas.

Pensamos com particular carinho nos padres doentes e nos familiares que os acompanham. Iniciamos ontem com a Eucaristia na Casa Sacerdotal com os sacerdotes ali residentes, se assim nos podemos exprimir, esta celebração, para que eles e todos os sacerdotes doentes sintam que estão presentes no nosso coração e que estamos decididos a cuidar deles e a viver com eles numa proximidade fraterna e numa atenção permanente de todas as horas.

 

6. Saudamo-vos, caríssimos seminaristas. A presença de todos aqui diz-nos do vosso desejo de avançardes no caminho que vos conduz ao sacerdócio. A alegria, a comunhão e o testemunho que procurais em nós sacerdotes são certamente para todos vós um estímulo e uma bênção.

Aos diáconos permanentes, sobretudo àqueles que foram ordenados em dezembro passado e àqueles que celebram neste ano, no próximo dia 26, o jubileu de 25 anos da sua ordenação, queremos dizer o nosso reconhecimento pelo dom que vós constituís nesta Igreja do Porto e agradecemos a quantos vos iniciaram e acompanham na formação às vossas esposas e famílias a colaboração que vos dão na disponibilidade que o ministério vos exige.

Aos consagrados (as) assim como a todos vós, irmãos e irmãs na fé, afirmamos a nossa comunhão na graça de Deus que age em vós e vos torna membros vivos e interventivos do nosso viver como diocese. De todos esperamos a vossa oração e bênção.

 

7. Que a Virgem Mãe de Jesus, Mãe da Igreja e nossa Mãe e Padroeira, a todos abençoe, ilumine, proteja e nos renove diariamente nas fontes da alegria.

 

Porto, Igreja Catedral, 13 de abril de 2017

António, Bispo do Porto

 
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