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Documentos - Homilias 2018

A intimidade com o Ressuscitado

projecta-nos para o serviço dos irmãos

É bela esta passagem do Evangelho: Aquele que congregou os Doze à sua volta, qual verdadeira família, e sofreu a sua fuga e abandono, parece que não consegue viver sem eles. Por isso, procura-os e recria a antiga convivialidade, como se nada tivesse acontecido. Para bem deles mesmos, já que, longe de Jesus, se debatem com o remorso, a incredulidade e o medo, somente superados pela oferta do encontro tu-a-tu. Como que a dizer, a eles e a nós, que a misericórdia de Deus não falha, mesmo quando entra a nossa traição mais vergonhosa. E que é Ele quem nos procura para dar um sentido empolgante à tentativa de recomeçarmos uma nova caminhada.

 

Lida em chave catequética, esta passagem evangélica diz-nos também que a «qualidade de vida», inaugurada pelo Ressuscitado, passa por aquelas dimensões que constituem o cerne do discipulado ou do ser Igreja: a evangelização, de que Jesus é Mestre, a ponto de conseguir a proeza de lhes abrir “o entendimento para compreenderem as Escrituras”; a liturgia, já que tudo se passa no contexto da cena dos “discípulos de Emaús que contaram […] como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão”; e a caridade, pois o “Mestre e Senhor”, que já tinha dado o exemplo do lava-pés, agora chega ao ponto de se identificar com os esfomeados e implorar “alguma coisa para comer”. É este anúncio, celebração e compromisso que constitui o cerne do Evangelho, aquele que, nós, aqui no Porto, juramos constituir a nossa “alegria” e “a nossa missão”.

É, também, desta intimidade, verdadeiro paradigma teológico e núcleo embrionário da Igreja, que nasce a obra apostólica, pois os discípulos compreenderam bem “que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”. E que isso os implicava, a ponto de serem constituídos “as testemunhas de todas estas coisas”. Para que? A primeira leitura fornece-nos a resposta.

Em todos os tempos e circunstâncias, o homem arrasta consigo a terrível inclinação a contradizer o plano divino. Se “o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus de nossos pais, glorificou o seu Servo Jesus”, as autoridades judaicas e os habitantes de Jerusalém exigiram o seu aniquilamento. Mesmo que Pilatos tivesse intuído esta inversão dos valores e estivesse “resolvido a soltá-l’O”. E nós estávamos lá, representados neles. Por isso, também nós negamos o Santo e Justo e pedimos “a libertação de um assassino”.

A obra da salvação tem de ser recuperada e actuada continuamente porque também é incessante esta tentação de preferir o mal ao bem e de optar pelo mundo das atitudes destruidoras, representadas na história pessoal de Barrabás, gerando a morte do Justo. É a apavorante sina da humanidade: rejeitar a verdade da existência, representada n’Aquele que São Pedro define como “o Príncipe da Vida”, e eleger a mentira da insensibilidade perante a morte. Que o digam as vítimas das violências e das guerras. Mas que os digam também os descartados e marginalizados pela civilização da abundância e do desfrute.

Todos reconhecemos os enormes contributos que os múltiplos sectores da sociedade podem dar para esta necessária e urgente sensatez humana, para se obstar à inversão dos pólos: a transmissão dos valores na família, o inestimável contributo da cultura, a força ordenadora da lei justa, o papel organizador da actividade político-administrativa, a prevenção ou repressão atribuídas às Forças Armadas e às Forças de Segurança, etc. Não obstante, esta obra de salvação está confiada primordialmente à Igreja, como guardiã da memória d’Aquele que “por nós homens e para nossa salvação desceu dos Céus”. A comunidade crente actualiza essa salvação agindo, simultaneamente, em dois âmbitos: internamente, na santificação, isto é, no tornar os corações mais sensíveis, mais semelhantes ao de Cristo; externamente, contribuindo para a humanização das organizações e das estruturas, no respeito pela autonomia das realidades terrenas.

Caros diocesanos do Porto, minhas senhoras e meus senhores, esta é a nossa missão. Porventura, mesmo sem o reconhecer, esta é a fermentação evangélica que o nosso mundo anseia. Sim, há muitas linguagens e compete-nos sermos especialistas na sua decifração. E uma das que mais ressoam por aí é o grito da opressão do sem-sentido que tanto fecha a pessoa no seu individualismo narcisista como o conduz ao abandono dos outros. Ser presença de Igreja neste mundo passa, consequentemente, por “comover [os corações] para desconvocar a angústia e aligeirar o medo”, para usar a belíssima expressão de Agustina Bessa Luís.

Para esta acção pastoral de “comover” os corações, conto com todos. Com todos. Conto, sobremaneira, com os jovens. Porque não sei dizer melhor, repito-lhes as palavras do querido Papa Francisco: “O tempo em que vivemos não precisa de jovens-sofá, mas de jovens com sapatos. Melhor: com as sapatilhas calçadas. Este tempo só aceita jogadores titulares em campo, não no banco de suplentes”. Jovens e pessoas de todas as idades.

A nossa equipa diocesana do Porto não terá, portanto, suplentes: nem jovens nem crianças, nem adultos nem idosos, nem ricos nem pobres, nem cultos nem humilhados. Tê-los-á a todos como titulares e em campo. Certamente treinados e capitaneados pelos bispos e padres. Não para gáudio destes, mas para, mais organicamente, obter bons resultados e marcar pontos no actuar da salvação no mundo. Não se retira, portanto, a determinante importância aos pastores, mas eleva-se o timbre de o ser, pois, como escreveu o director de um grande jornal –de facto, a laicidade tem tanto a ensinar-nos!- “o cristianismo é proximidade, o que faz a diferença entre o burocrata e o pastor: um conta o número de ovelhas, o outro procura cuidar delas”. Pensemos nisto, neste dia em que começa, em todo o país, a Semana de Oração pelas Vocações de especial Consagração.

Caros fiéis em Cristo, estamos todos na «barca de Pedro»: ou navegamos ou nos afundamos. Então, o melhor será remarmos em conjunto.

***

Senhor Núncio Apostólico, interrogo-me sobre as razões da minha nomeação para tão honroso ministério, como seja este de Bispo do Porto, na tradição, por exemplo, desse eminente e inesquecível D. António Barroso, cujo báculo acompanhou todos os meus antecessores, desde há cem anos e, agora, me sustenta a mim próprio. E não encontro outro motivo que não seja o meu sotaque beirão, mais propriamente da Beira Douro: o Porto já estava habituado a ele desde o senhor D. António Francisco. Pois bem, se o imito na pronúncia, saiba, igualmente, continuá-lo na simplicidade encantadora, na afectividade envolvente e na bondade contagiante. É que, tal como ele, também eu estou convencido que só isso lança pontes da Igreja para o mundo e do mundo para a Igreja. Nesta linha, é com um coração duplamente agradecido que ressalto o gesto das Câmaras Municipais do Porto e de Vila Nova de Gaia de atribuir o nome de D. António Francisco dos Santos à nova ponte, estrutura de aproximação e de encontro: agradeço este tributo à Diocese do Porto que teve este ilustríssimo bispo como seu condutor; e agradeço esta interpelação que me é feita, a mim, pessoalmente, qual seja a necessidade de nunca me esquecer que um bispo é, por natureza e mandato divino, um «pontífice», um construtor de pontes.

Tentá-lo-ei com a ajuda divina que imploro por intermédio da «Rosa mística», a Virgem Santa Maria, venerada como Senhora da Assunção em toda a Diocese e como Senhora da Vandoma nesta nossa cidade episcopal.

“Movidos pelo amor de Deus”, vamos à nossa obra, irmãos.

+ Manuel Linda

 
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