Homilia nas Exéquias de Monsenhor Alexandrino Alves Ferreira Brochado Versão para impressão
Documentos - Homilias 2016

1.Reunimo-nos, irmãs e irmãos, nesta nossa Capela das Almas, no coração histórico do Porto, para celebrar as exéquias solenes pelo seu Reitor, Monsenhor Alexandrino Alves Ferreira Brochado, que aqui vive e trabalha desde 1 de janeiro de 1953.

Aqui viveu e aqui assumiu com inexcedível dedicação a missão que lhe foi confiada pela Igreja. Aqui desenvolveu o seu ministério sacerdotal ao serviço de milhares de pessoas e de várias gerações. Aqui ajudou tanta gente de longe e de perto, desde leigos a sacerdotes, e me ajudou também a mim quando precisei de a ele recorrer para obter hospitalização para minha mãe, em situação de grave doença.

 

Aqui estamos hoje todos, ao seu lado, para lhe dizer a bênção que para todos nós constituiu o seu ministério sacerdotal e para lhe afirmar a gratidão pelo bem que a todos nos fez. Hoje estamos em torno dele e em gratidão a Deus por ele. Aqui estamos com ele à volta do altar onde diariamente celebrava a Eucaristia. Estamos com a sua família, com os sacerdotes que com ele aqui trabalhavam, com as pessoas com ele colaboraram, com a Irmandade das Almas e de S. Francisco, aqui sedeada, e com os seus muitos amigos de longe e de perto; de ontem, de hoje e de sempre.

Cumprimos o seu desejo de aqui serem celebradas as exéquias solenes, antes de partir para S. Pedro da Raimonda, em Paços de Ferreira, a sua terra-berço, onde quer ser sepultado.

2. Monsenhor Alexandrino Brochado nasceu em Raimonda, Paços de Ferreira, a 8 de outubro de 1920. Era filho de Joaquim Vítor Alves Ferreira e D. Alcina Ribeiro Brochado. Em 1932 ingressou no Colégio-Seminário de Ermesinde e em 1939 no Seminário Maior do Porto, onde concluiu, em 1943, os seus estudos teológicos. Em outubro desse mesmo ano foi nomeado Secretário do Bispo Porto, D. Agostinho de Jesus e Sousa. Foi ordenado presbítero em 17 de setembro de 1944, na Capela da Torre da Marca, residência dos Bispos do Porto, ao tempo. Em 1947, foi fundador e primeiro Presidente da Cáritas Diocesana do Porto. Em 1 de janeiro de 1953, foi nomeado por D. António Ferreira Gomes, Reitor da Capela das Almas e simultaneamente professor de Educação Moral e Religiosa Católica no Liceu Alexandre Herculano. Em 1992, foi nomeado Capelão da Associação Humanitária dos Bombeiros Portuenses. Em 28 de abril de 2012, o Papa Bento XVI nomeia-o seu Prelado de Honra, com o título de Monsenhor.

Foi agraciado pelo Governo da Áustria, pela Câmara Municipal do Porto, pela Câmara Municipal de Paços de Ferreira e pela Associação dos Bombeiros Portuenses. A Paróquia e a Freguesia de Raimonda prestaram-lhe uma homenagem conjunta e erigiram um Busto, em sua memória, no Largo da igreja da sua terra natal.

Da sua vida e do seu “ministério multifacetado e cheio de gestos de amor e de caridade diante daqueles que a sociedade lhe apresentava carenciados dos bens mais elementares” (Jornal de Notícias de 2.1.2003), queria destacar três aspectos, entre tantos outros, que me parecem de particular relevância e de singular oportunidade: a sua disponibilidade para lançar os fundamentos da Cáritas Diocesana e o seu trabalho para acolher as crianças da Áustria que procuraram abrigo e refúgio em Portugal durante a II.ª Grande Guerra; o carisma de bondade, de acolhimento, de escuta e de presença atenta com que exerceu a sua missão e o seu ministério nesta Capela das Almas; a sua inquietude cultural e o seu amor ao Porto, Diocese e Cidade, que fizeram dele “um homem no coração do Porto que tinha o Porto no coração” (O Comércio do Porto, 24.7.2000).

Primeiramente faz-nos bem recordar a sua determinação e generosidade ao receber, ao inserir nas famílias portuenses e ao acompanhar as crianças refugiadas da Áustria e tantas foram as que vieram por seu intermédio para o Porto. Entre estas crianças esteve um futuro Arcebispo de Viena e uma outra criança que seria mais tarde Esposa de um Chanceler austríaco. Não esqueçamos que, nesse tempo, Portugal recebeu 5500 crianças austríacas, que assim eram resgatadas da guerra no seu País.

Hoje vivemos uma situação muito semelhante, à escala europeia e mundial, com a situação dos refugiados de tantos países em guerra e precisamos de exemplos como o de Monsenhor Alexandrino Brochado para sermos mais rápidos mais solidários, mais libertos de burocracias e de calculismos. Numa palavra: mais humanos.

É, em segundo lugar, de igual justiça e da mesma urgência aprendermos de Monsenhor Brochado o dom e a capacidade para acolher, para ouvir e para escutar quem bate à porta da Igreja e para ajudar aqueles que precisam. A Igreja convoca-nos diariamente, pela voz e pelo exemplo do Papa Francisco, para esta missão de acolhimento, de escuta e de reconciliação, que neste Ano Jubilar da Misericórdia se assume com particular clareza como desafio para todos nós, leigos, consagrados e sacerdotes, para que sejamos misericordiosos como o Pai e pratiquemos as obras de misericórdia, com alegria!

Finalmente guardaremos como património inesgotável do bem que a todos nos fez a sua dedicação à cultura como colaborador semanal da nossa Voz Portucalense e como autor de várias obras publicadas, que dignificam a cultura e prestigiam o Porto. Este serviço à cultura é também, entre tantos outros, um valor que o Porto e a Região devem à Igreja e concretamente a muitos dos seus sacerdotes.

3. Todos sabíamos da doença que, dia a dia, o fragilizava, mas a morte surpreende-nos sempre. Aqui estive com Monsenhor Alexandrino Brochado, no passado dia 8 de outubro, no dia do seu aniversário. Senti-o muito debilitado na sua saúde mas muito feliz pela vida longa que Deus lhe concedia e pela missão que continuava a realizar nesta Capela, “a sua casa e o seu santuário”, como aqui referiu naquele dia em que completava 95 anos de idade.

Visitei-o várias vezes nestas últimas semanas de hospitalização. Senti-o tranquilo, sereno, confiante e preparado para partir ao encontro de Deus. A morte não pode abalar a nossa fé nem fazer vacilar a nossa esperança!

Isso mesmo nos diz a Palavra de Deus, nas leituras hoje proclamadas. A primeira leitura do profeta Isaías recorda-nos que: “Deus destruirá a morte para sempre. Eis o nosso Deus de quem esperávamos a salvação. Este é o Senhor em quem pusemos a nossa esperança” (cf Is 25, 6-9).

Na segunda leitura, S. Paulo afirma o valor redentor da ressurreição de Cristo. Se Cristo ressuscitou, também nós ressuscitaremos. Não desanimamos. A tenda deste corpo mortal vai-se desfazendo e desmoronando, mas uma habitação eterna se adquire no Céu (cf 2 Cor 4, 14 a 5,1).

O Evangelho das bem-aventuranças, no texto de Mateus, é um programa de vida cristã e um hino à missão dos sacerdotes. É a síntese do Evangelho que pregamos. É a bênção que connosco transportamos. As bem-aventuranças são o que de mais santo somos chamados a construir e a realizar. No mundo de hoje, a braços com dificuldades várias, com crises acrescidas e com problemas maiores, saibamos todos nós dizer esta palavra de bênção evangélica e viver este programa que Jesus nos confiou (Mt 5, 1-12)!

4. A vida de um padre inscreve-se sobretudo naquilo que fica gravado no Livro da Vida e guardado no coração de Deus e no coração humano dos vivos, que é sempre o melhor sepulcro dos mortos.

Sabemos todos, irmãos sacerdotes, que é Jesus que nos envia a servir as comunidades com coração de pastor, ao jeito do seu coração de Bom Pastor. É de olhar fixo neste Jesus, suspenso e elevado no madeiro da cruz, que percebemos que a morte não tem a última palavra e que a missão da Igreja é essencial na vida das pessoas, das famílias e das comunidades.

Que assim aconteça sempre nesta Capela das Almas, situada numa das zonas mais centrais e mais procuradas da nossa cidade! Que assim se faça presente a nossa fé e se realize o nosso ministério na Eucaristia diariamente aqui celebrada e na devoção aqui tão presente ao lembrar em sufrágio os nossos mortos, porque acreditamos na ressurreição e na vida eterna!

5. Quero, em nome da Igreja do Porto, agradecer à Família de Monsenhor Alexandrino Brochado, a quem ele tanto se deu e que o acompanharam com dedicação e carinho, os sacerdotes que tanto o ajudaram e a quem ele tanto ajudou, à Irmandade das Almas, aos seus colaboradores e a quantos hoje aqui estão presentes.

A nossa dedicação aos sacerdotes e o nosso respeito pela sua memória abençoada são sempre sementes de novas vocações. Assim acreditamos e assim rezaremos sempre.

Confio à protecção da Mãe de Deus e nossa Mãe, Senhora das Dores, com aqui é tão carinhosamente invocada, esta súplica e esta gratidão a favor de todos os sacerdotes desta amada Igreja do Porto.

Capela das Almas, 20 de maio de 2016

António, Bispo do Porto

 

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