Festa da Venerável Irmandade de Nossa Senhora do Terço e Caridade – Porto Versão para impressão
Documentos - Homilias 2016

1.Estamos aqui reunidos para celebrar a Eucaristia, convocados pelo Senhor Ressuscitado. Centremo-nos na Palavra de Deus, hoje proclamada: Isaías na primeira leitura lançava-nos um belo convite: “Alegrai-vos com Jerusalém. Exultai com ela, todos vós que a amais!.” (cf. Is 66, 10-14). A alegria é o rosto da nossa missão!

Isso mesmo nos diz o Papa Francisco na sua primeira Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, de que fez programa do seu ministério e paradigma da sua missão. Isso mesmo nos lembra agora na recente Exortação Apostólica “A Alegria do Amor”,  sobre a vida, a vocação e a missão da Família, lembrando-nos que “a alegria do amor vivido em família é também o júbilo da Igreja” (cf. AL n.º 1)

 

O Evangelho de S. Lucas lembra-nos, por seu lado, que Jesus, depois de passar uma noite em oração, escolheu doze apóstolos de entre os numerosos discípulos agrupados à volta d’Ele e enviou depois outros discípulos anónimos, dois a dois, a anunciar a boa nova que lhes havia comunicado (cf. Luc 10, 1-9). Estes discípulos constituem as primícias e os pioneiros dos missionários de todos os tempos!

2. Celebramos hoje a festa da Venerável Irmandade de Nossa Senhora do Terço e Caridade. As Irmandades e as Ordens Terceiras nascem no Porto, como em tantos outros lugares da presença cristã no mundo, desta visão interpretativa do lugar e da missão dos leigos inseridos no mundo e empenhados na transformação da ordem temporal. Mesmo que tenham tido sacerdotes na sua origem, como aqui aconteceu, depressa as colocaram nas mãos e no coração dos leigos, onde permanecem hoje e aí devem continuar no futuro.

No Porto, as Ordens Terceiras e as muitas Irmandades, aqui presentes e extraordinariamente activas e interventivas desde o seu início, configuram o rosto da nossa Cidade, sobretudo no campo da formação cristã, da celebração da fé, do acompanhamento espiritual, da saúde, da educação, da cultura, da beneficência e do modo de cuidar os pobres, os excluídos e os que sofrem. Constituem uma harmoniosa e inteligente distribuição pela geografia urbana e uma bela e atenta repartição pelos vários âmbitos do serviço nas várias frentes da plurifacetada missão da Igreja.

Congregaram estas Irmandades e Ordens à sua volta generosos fundadores, dedicados dirigentes, magnânimos beneméritos e solícitos colaboradores. Somos-lhes devedores de uma palavra de justiça e de um preito de gratidão. A minha presença aqui presta-lhes esta justiça e testemunha-lhes esta gratidão, em nome da Igreja do Porto.

3. A Irmandade do Terço, assim comumente conhecida, leva-nos a buscar a sua origem a 21 de novembro de 1754, quando o Padre Geraldo Pereira adquiriu algumas casas à Porta do Cimo de Vila, no Porto, para aqui construir uma igreja, esta igreja, que viesse dar dimensão e sentido ao antiquíssimo oratório de Nossa Senhora do Terço, à volta do qual os crentes, todas as noites, se reuniam para rezar o Terço do Rosário.

Aqui foi celebrada a primeira missa em 1759 e posteriormente criada canonicamente a Irmandade, em 16 de maio de 1766, (perfazem-se agora 250 anos), acrescendo-lhe como designação – Irmandade de Nossa Senhora do Terço e Caridade.

O Hospital foi construído posteriormente no espaço envolvente da igreja e inaugurado em 1781. É interessante destacar que muitos factos cirúrgicos importantes e pioneiros acontecidos em Portugal tiveram lugar aqui, graças a ilustres nomes da medicina portuguesa que aqui trabalharam.

Nem sempre foi fácil a travessia neste arco do tempo histórico. Foram muito difíceis as últimas décadas. Mas, mesmo nos momentos difíceis, nunca faltaram servidores generosos desta causa nem obreiros disponíveis para esta casa, respondendo aos desafios complexos com que, em cada época, são confrontadas as pessoas e as instituições.

Aqui estamos, hoje, para, nesta Eucaristia, darmos graças a Deus por todos e por cada um daqueles que fizeram esta Venerável Irmandade. Esta iniciativa e esta celebração significam que queremos dar um passo em frente, no caminho da fidelidade ao carisma fundador, no fortalecimento da esperança no futuro, na persistência da renovação e no esforço inovador de gestão, para irmos ao encontro dos que devemos servir - e são tantos - e dos que nos podem ajudar a servir - e são felizmente muitos.

Como instituição da Igreja e da Cidade, sedeada a poucos passos da Sé, esta Irmandade constitui um verdadeiro património do Porto e tem hoje desafios abertos para prosseguir com imaginação e ousadia o seu desígnio de missão. Não lhe faltarão nunca, como nunca lhe faltaram no passado, a presença e a dedicação agradecida dos bispos e da Igreja do Porto. Tem também o carinho e a gratidão dos portuenses, tantos deles aqui nascidos!

4. As realidades diferentes que agora vivemos obrigam-nos a darmos as mãos, a unirmos forças e a desenharmos projectos comuns com as outras Ordens Terceiras e com a Santa Casa da Misericórdia do Porto, para fortalecermos o espírito criativo de colaboração e complementaridade e para encontrarmos as respostas adequadas para os problemas novos, que temos pela frente.

Vemos ser nosso dever primordial estabelecer pontes e criar sinergias com as outras instituições, as mais próximas e as mais distantes, para abrirmos clareiras de colaboração e de comunhão amplas e alargadas com as instituições da Igreja e da Cidade.

Proponho-vos que continueis este espírito inicial e este carisma fundador, que desde há muito aqui estão presentes. A generosidade tantas vezes heróica dos dirigentes da Venerável Irmandade de Nossa Senhora do Terço e Caridade e a generosidade dos seus muitos benfeitores e beneméritos dizem-nos que é grande o património do passado e é igualmente grande o desafio do futuro. A caridade está no nosso nome e constituirá sempre a marca e o desígnio da nossa acção.

5. Que Nossa Senhora do Terço e Caridade, nossa Padroeira, nos conceda graças e bênçãos para, neste Ano da Misericórdia, acolhermos o convite do Papa Francisco feito aos cristãos e às instituições da Igreja para sermos capazes de traduzir a caridade evangélica em gestos proféticos e em obras de misericórdia praticadas com alegria!

Porto, igreja de Nossa Senhora do Terço, 3 de julho de 2016

António, Bispo do Porto

 

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