"Só do lado de Deus colaboramos na história da salvação"
Homilia na Imaculada Conceição
Dirijo-me diretamente aos caros ordinandos, mas a mensagem é para todos nós, portadores, pelo menos, do sacerdócio comum dos fiéis.
Acabais de ser convocados pela Igreja, por intermédio do senhor Reitor do Seminário Maior, para vos apresentardes perante o povo de Deus. Estáveis colocados fisicamente entre as outras pessoas que ocupam a capela-mor desta Sé, como podíeis estar dispersos pelos bancos da assembleia, o que até seria mais significativo. E quando ouvistes o vosso nome, disseste “Presente!” e avançastes para o centro, para serdes vistos pelos demais fiéis. Quer dizer: saístes do meio da assembleia para entrardes em cena, para deixardes o anterior estatuto de leigos na Igreja e passardes ao ministério ordenado para o serviço e para o bem de toda a Igreja.
Com a Bem-aventurada Virgem Santa Maria, de quem hoje celebramos a sua Imaculada Conceição, aconteceu algo de muito parecido. Vivia a sua existência de crente entre os crentes do antigo Povo de Deus. Mas quando o Pai das Misericórdias e Deus de toda a Consolação se lhe dirigiu por intermédio do Anjo, diz “Eis-me aqui” –o equivalente ao vosso “Presente!”-, deixou o anonimato da existência e entrou em cena na história da salvação, de tal forma que se tornou colaboradora essencial da passagem do antigo para o novo Povo de Deus, gerado na nova aliança do sangue do seu Filho.
Não foi assim que procederam Adão e Eva, segundo o belo relato do Génesis. Quando Deus, o amigo íntimo que ia com eles passear pela brisa da tarde, os chamou para essa caminhada em conjunto, não os viu. Não se apresentaram. Faltaram ao encontro. Deus chamou por eles, mas nada mais obteve que não fosse a terrível frase de Adão: “Tive medo e escondi-me”. É a informação do corte com Deus, da rejeição do seu companheirismo amoroso, das costas voltadas à Salvação, do grande silêncio mudo perante o Sobrenatural e o seu desígnio. Mas também é o corte com todos as outras pessoas, ali representados no «Grande Outro», que é Deus. Por isso, sairam de cena e colocaram-se na origem de uma história de sofrimento, de barbaridades, de perdição. Iniciaram uma história com absoluta necessidade de ser redimida.
Caros ordinandos e todos vós, fiéis em Cristo, em Maria de Nazaré e em Adão e Eva estão plasmados os dois polos da história da humanidade: ou o estar do lado de Deus, entrar em cena e contruir uma narrativa de salvação ou precisamente o seu contrário que é voltar-Lhe as costas, esconder-se no seu individualismo despreocupado com os outros e gerar o contínuo sofrimento e a morte de uma história de perdição. Escolhei vós qual modelo quereis seguir. Escolhei, na certeza de que qualquer opção tem as suas consequências bem distintas.
Evidentemente, eu sei que escolhestes o lado amoroso de Deus. Mas quem escolhe esse âmbito, não mais se pode refugiar no isolamento do não-te-rales, numa existência que observa o mundo e a história a partir de fora, sem se comprometer com ela. Não! Quem escolhe a bela cena do serviço divino lida com situações difíceis como Maria no presépio de Belém, tem de estar ao lado de Jesus Cristo como Ela esteve no Calvário, tem de o apresentar ao mundo como o apresentou no templo de Jerusalém, tem de se preocupar com os outros como aconteceu nas Bodas de Caná.
Observamos à nossa volta e vemos uma sociedade fraturada, desconstruída. É precisamente por isso que mais se reclama o nosso contributo. Somos chamados a reparar o tecido das relações com os valores do humanismo e a coesão integradora e fraterna da fé cristã. Como tal, caros diáconos, habituai-vos a partilhar: a partilhar o pão da terra porque também partilhamos o pão do Céu. Com a Palavra de Deus, ajudai a construir comunidades fraternas e preocupadas com a sorte do irmão. Com o Corpo do Senhor, saciai as diversas fomes do mundo, entre as quais avulta a necessidade de transcendência, de relação com o divino; com gestos de amor fraterno, mostrai que são verdadeiras as Palavras do Salvador que nos garantia: “Eu estarei sempre convosco até ao fim do mundo” (Mt 28, 20). Até ao fim do mundo e na eternidade.
Habituai-vos a dizer “sim”, “presente” ou “Eis-me aqui”, como Maria de Nazaré. Que o sim da fraternidade e da solicitude seja o identificativo da vossa vida. E com esse pressuposto, não vos esqueçais que “aqueles que esperam no Senhor caminham sem se cansar”. Portanto, caminhemos! Caminhemos como os pastores e os magos em direção à grade e única meta que vale a pena alcançar: Jesus. Caminhemos porque o próximo ano jubilar vai andar muito à volta da peregrinação interior e exterior. Caminhemos com a Imaculada Conceição, que não parou na vida, mas se colocou em cena e muito colaborou na história da salvação. Com Ela, chegaremos à boa meta.
+ Manuel Linda 08 de dezembro de 2024