“É que a abertura da porta santa significa a abertura do coração”, disse D. Manuel Linda numa intensa celebração jubilar, desejando que o Ano Santo possa ser nas prisões um tempo de edificação da esperança, da liberdade, da felicidade e da reconstrução da vida familiar e social.
A celebração jubilar no Estabelecimento Prisional de Custóias encheu de esperança todos os que nela participaram. Nela estiveram representados todos os estabelecimentos prisionais da diocese do Porto, na presença dos seus diretores, de um grupo de reclusos de cada uma das cadeias e de tantos voluntários que colaboram com a Pastoral Penitenciária diocesana coordenada pelo padre Davide Matamá. Uma celebração promovida pela Comissão Organizadora do Jubileu dos Reclusos na diocese do Porto na tarde de sábado 8 de março.
O bispo do Porto presidiu a esta celebração e na sua homilia declarou que as prisões da diocese do Porto serão durante o Ano Santo de 2025 a catedral nº2. “A partir de agora e durante o ano, este e os demais Estabelecimentos Prisionais constituirão a catedral nº 2 da diocese do Porto”, disse D. Manuel Linda.
Abrir a porta do coração
Para D. Manuel Linda este Jubileu é tempo favorável para “uma existência diferente”. “É que a abertura da porta santa significa a abertura do coração”, afirmou. Um coração que se abre ao amor para fazer a fraternidade.
“Um coração tanta vez fechado em si e nos seus ódios e desejos de vingança, para se abrir ao amor, aos outros e ao bem de todos. Um coração que deixa entrar amizades e relações sociais sadias e que nos deixa sair a nós mesmos para irmos ao encontro dos outros, todos diferentes, mas todos possuidores de qualquer coisa de próprio que nos pode fazer felizes. É que só corações abertos fazem fraternidade”, afirmou D. Manuel Linda.
A este propósito, D. Manuel Linda lembrou que Jesus foi também preso e condenado e que na sua morte por crucifixão foi-lhe dada “uma facada no coração”. Um “coração aberto para simbolizar o que é um coração que ama”, explicou D. Manuel Linda.
O bispo do Porto recordou as imagens que existem nas igrejas com esta representação. “São as imagens ditas do Sagrado Coração de Jesus. Certamente já as viram. Pensem nelas”, afirmou.
“A exemplo d’Ele, é este nosso coração aberto que recebe e projeta para a esperança, tema deste ano jubilar. Esperança de que, n’Ele, chegaremos ao porto da alegria e da felicidade. Ele é uma âncora que garante essa solidez de percurso, se nos agarrarmos a ela. É que, ao contrário das âncoras do navio, que o prendem para que ele se não mova, a âncora da salvação, que é Jesus, move-se. Mas move-se para a plena felicidade que ansiamos já neste mundo e para aquilo que se encontra para lá dele: a vida eterna”, disse o bispo do Porto.
Sublinhou, em particular, a esperança como “luz para todos”, neste “tempo e contexto de forte escuridão”. “Este, de facto, é um tempo de forte vazio de coração: vazio de afetos, vida e de sonhos”, assinalou.
“É esta luz que eu desejo habite o vosso interior. É essa luz, particularmente se for luz de fé, que vos fará ver que, quanto mais erramos, mais Deus se torna presente para a nossa mudança de vida, para o que chamamos conversão. É essa luz que nos mostra que Deus assume como seu o sofrimento dos sofredores”, destacou D. Manuel Linda.
Edificar a esperança e a liberdade
O bispo do Porto, no final da sua homilia, falou na liberdade pela qual aguardam os reclusos, desejando que este seja um “tempo de edificação da esperança, da liberdade”.
“Porque acreditamos na liberdade, porque todos nós ansiamos por uma liberdade que será exterior, mas, desde já, tem de começar por ser interior, que tem de nascer a partir do vosso coração tornado cada vez mais sensível e transformado, também eu, em nome do Senhor, vos desejo um tempo de edificação da esperança, da liberdade, de felicidade, da reconstrução da vossa vida familiar e social”, disse D. Manuel Linda na conclusão da sua homilia.
No final de uma intensa celebração, plena de música, cânticos e preces, foram entregues os prémios de um concurso de artes, que foi aberto aos seis estabelecimentos prisionais da diocese do Porto, em modalidades tão diferentes como a prosa, a poesia, o desenho, a pintura e a escultura.
No âmbito deste Jubileu dos Reclusos, destaca-se na quinta-feira 13 de março, pelas 21.30h uma mesa redonda no CREU – Centro de Reflexão e Encontro Universitário da Companhia de Jesus, num debate que procura respostas para a pergunta, “O perdão liberta?”. No dia 16 de março, pelas 16.00h haverá uma peregrinação que vai partir da zona da Cordoaria, junto à antiga Cadeia da Relação do Porto, até à Sé Catedral. Uma peregrinação simbólica, onde estarão, segundo a organização, familiares de reclusos.