Sob a orientação espiritual do Reverendo Senhor Padre Frei João Carlos Vieira, da Ordem dos Carmelitas Descalços, realizou-se, nos dias 8 e 9 de março de 2025, o Retiro Quaresmal dos Diáconos Permanentes da Diocese do Porto, aberto também às esposas, no Convento de Avessadas, Marco de Canaveses.
Este retiro foi um convite à interioridade, um chamamento ao deserto do coração, onde Deus fala e transforma. Inspirados pelos capítulos 13 a 17 do Evangelho segundo São João, refletimos sobre o amor infinito de Deus, que nos procura e nos ama primeiro, e sobre o desafio de abrir o coração para escutar a Sua voz.
O Deserto como Espaço de Encontro com Deus
O retiro é, por excelência, um “ir ao deserto”, um afastar-se do ruído do mundo para estar a sós com Deus. Como nos recorda Santa Teresa de Jesus, é necessária uma “determinada determinação” para trilhar o caminho da oração e da intimidade com o Senhor.
É neste silêncio sagrado que reconhecemos que Deus é sempre o primeiro a procurar-nos, o primeiro a amar-nos. E, como nos ensina São João da Cruz, “para se alcançar o que ainda não se tem, é necessário ir por onde ainda não se vai”. Assim, o deserto espiritual torna-se caminho de despojamento, de purificação e de encontro com o Amado.
O retiro foi também um recordar da nossa própria história de salvação, um abrir do coração ao Deus que nos chama à santidade e à união com Ele. A oração é o estar muitas vezes a sós com Aquele que amamos, é a amizade com Deus, cultivada com o silêncio e a entrega.
Santa Teresa ensinava que “a oração é um trato de amizade, estando muitas vezes tratando a sós com Quem sabemos que nos ama”. Neste trato íntimo, aprendemos a escutar a voz suave de Deus, que sussurra ao coração e nos chama à conversão e ao amor profundo.
O Amor que se Entrega até ao Fim
Meditando sobre o mistério da Cruz, contemplámos o amor oblativo de Jesus. Na Cruz, Ele entregou-Se totalmente por nós. O Seu “kenosis”, o despojamento total, é o modelo de vida para cada cristão. Somos chamados a viver de forma oblativa e eucarística, a sermos sacrários vivos e abertos aos irmãos, a oferecer a nossa vida em serviço e amor.
O gesto do lava-pés foi um dos pontos de profunda reflexão. Jesus, o Mestre e Senhor, abaixa-Se para lavar os pés aos discípulos, ensinando-nos que a verdadeira grandeza está no serviço humilde. Ele rebaixa-Se para nos elevar. Quantas vezes resistimos a este amor? Quantas vezes preferimos as seguranças e lógicas do mundo, afastando-nos da lógica do amor? Como São João da Cruz nos lembra, “para vires a saborear tudo, não queiras saborear algo em nada”. O verdadeiro amor exige esvaziamento, desapego e entrega total.
Um Chamamento à Reflexão e Conversão
O retiro convidou-nos a questionar:
– Vivo uma vida oblativa, eucarística?
– Como é que eu expresso o meu serviço e a minha entrega ao próximo?
– Estou disposto a ser pão partido para alimentar os outros?
Jesus chamou-nos a fazer da nossa vida um dom. “Há mais felicidade em servir os outros do que na lógica da felicidade que o mundo impõe”. Este é o mandamento do serviço que cada diácono é chamado a viver. E, como Santa Teresa nos recorda, “o amor é a medida da nossa entrega”. Assim, fomos desafiados a amar até às últimas consequências, com um amor que se traduz em serviço humilde e generoso.
A Verdade que Liberta e Conduz à Vida
Meditámos também sobre o encontro de Jesus com Pilatos e o questionamento sobre a verdade. Pilatos interroga: “O que é a verdade?”, mas é o próprio Cristo, Rei e Sacerdote, quem encarna essa Verdade, proclamada mesmo na cruz. Quando Jesus diz “Tenho sede”, revela a Sua sede de amor, sede do nosso amor e entrega. Como respondemos a este clamor de Cristo? A nossa vida é um reflexo desse amor que recebemos e partilhamos? Como São João da Cruz ensina, “na tarde da vida, seremos julgados pelo amor”. Que a nossa entrega seja um testemunho desse amor, que se traduz em gestos concretos de caridade e compaixão.
A Alegria da Ressurreição
O caminho não termina na cruz, mas culmina na alegria da ressurreição. Fomos convidados a sermos discípulos conscientes, a trilhar com fé o caminho pascal, reconhecendo em cada etapa a revelação do amor de Deus. A ressurreição de Cristo é a nossa esperança, é a promessa da vida eterna e plena com Deus. Como Santa Teresa dizia: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta.”
Comunhão e Serviço no Ministério
O retiro foi também um momento de comunhão fraterna, de oração e partilha entre os diáconos e suas esposas. Unidos na sagrada ordem do diaconado, renovámos o compromisso de servir o Povo Santo da nossa amada Diocese do Porto, em comunhão com o nosso Bispo Diocesano, seus Bispos Auxiliares e todo o Presbitério.
Que o Senhor, Servo dos servos, nos fortaleça e nos conduza, para que, com humildade e determinação, possamos ser instrumentos vivos do Seu amor e da Sua misericórdia. Que a espiritualidade de Santa Teresa de Jesus e de São João da Cruz ilumine o nosso caminho, guiando-nos na busca incessante pela união com Deus, que é Amor infinito e fonte de toda a nossa esperança.