A Diocese do Porto, neste Ano Santo, celebra com alegria o centenário do Monsenhor José Pereira Soares Jorge. Foi o primeiro responsável pelo Secretariado Diocesano da Catequese e pároco do Santíssimo Sacramento na cidade do Porto. Recorda aqui a sua longa vida num testemunho pleno de energia positiva, deixando uma mensagem de esperança para os jovens.
Jorge é apelido, monsenhor é título, mas ser padre é aquilo que Deus quis dele em 74 anos de ordenação presbiteral. O Monsenhor Jorge apresenta o seu testemunho de vida completando 100 anos no próximo domingo 2 de fevereiro, na Festa da Apresentação do Senhor.
Vive na Casa Sacerdotal do Porto onde mantêm um fresco sentido de participação e partilha da vida comunitária. Está muito atento ao mundo e procura leituras para se informar. Possui uma saudável memória. Agradece a Deus a saúde, não esquecendo de nomear o médico José Alberto Frey Ramos, que o acompanhou durante muitos anos. Lembra tantos outros médicos que o ajudaram a chegar a esta idade centenária.
Apresentamos aqui as palavras de Monsenhor José Pereira Soares Jorge, em discurso direto, num testemunho pleno de energia positiva, deixando uma mensagem de esperança para os jovens. Começa o seu relato recordando o amor da mãe Guilhermina e do pai José.
A mãe, o pai e os irmãos, numa família numerosa
“Minha mãe, e meu pai eram jovens. Na sua alegria tiveram o primeiro filho. Que fui eu, o primeiro de dez. Eles viveram muito a sua vida matrimonial. O pai teve de emigrar até ao Brasil, para ganhar o pão nosso de cada dia. Mas a mãe ficou sempre em Arada. Arada, é a minha terra natal. Nessa altura, era pouco desenvolvida aquela freguesia, mas a minha mãe tinha conhecimentos de outros jovens da sua idade, e viveu na perspetiva das Filhas de Maria, que então existiam, antes da Ação Católica. Criou-me com muito carinho, com muito amor. Depois vieram mais, mais filhos. Sou realmente o primeiro de uma família numerosa.
Isso é uma história muito bonita. Eu era propenso às coisas da Igreja, e fiz lá em casa uma igreja. Uma capelinha, uma igreja. E tinha amigos e amigas que iam arranjar os altares. A minha madrinha de Batismo era a professora de Arada. Guilhermina, também. E ela, um dia, eu já tinha 13 anos, 13 anos… Ela perscrutou os sinais, e disse à minha mãe que eu certamente teria vocação para ser padre. Eu recordo muito bem essa tarde. Recordo muito bem de onde é que estava a minha mãe e o que eu andava a fazer no pátio da nossa casa. E a mãe disse-me: “Olha, a tua madrinha disse-me se tu não quererias ser padre, ou ir para o seminário?” E eu naquela noite não dormi. Fiquei a pensar toda a noite no assunto. E não dormia. Mas, a certa altura tive um pensamento. “Eu quero o que Deus quiser de mim.” “Eu quero o que Deus quiser de mim.” E adormeci.”
O Seminário e o sacerdócio
“O tempo de Seminário foi um tempo, digamos, agradável, embora de muito trabalho. Um rapazinho da aldeia que vai meter-se nos preparatórios tem sempre dificuldades. Tive alguma dificuldade, mas… Foi o Seminário de Trancoso, em Vila Nova de Gaia. Era o reitor, o Sr. Cónego Manuel Nédio de Sousa, que me acolheu muito bem. Mais tarde foi ele meu padrinho, digamos assim, porque arranjou uma bolsa de estudos, que me foi concedida, e já não tive tantas despesas, porque fazia muita diferença lá em nossa casa.
Fui um aluno a pensar no sacerdócio, sempre. A pensar sempre no sacerdócio. E ajudado por eles, e pelos padres do Seminário, por os respetivos reitores… Em Vilar tive como Reitor o Dr. Ferreira Gomes, mais tarde Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Na Sé, tive como reitor o Cónego António Ferreira Pinto. Muito célebre, muito célebre… E tive bons diretores espirituais. Tive gente que me ajudou muito.
O presbiterado foi na Igreja de Oliveira de Azeméis, em 1951, 29 de julho. Foi muito solene, e o D. Agostinho, Bispo do Porto, queria que as Ordenações fossem vivas, vividas pelo povo. E assim fomos nesse ano ordenados em Oliveira de Azeméis e em Santo Tirso. Os seminaristas que eram de baixo… Para baixo do rio Douro, em Oliveira de Azeméis. Os que eram para cima, em Santo Tirso.”
Espinho e o desafio do Secretariado da Catequese
“Fui chamado pelo Sr. D. Agostinho para Coadjutor de Cedofeita, onde era pároco o Padre António Brandão. Aprendi muitas coisas. Entretanto, Espinho estava com um padre já de muita idade, Padre Joaquim Amaral. Eu, portanto, fui substituí-lo. A certa altura, ele viu que era melhor deixar, e escreveu ao Sr. Bispo, nessa altura, já o D. António Ferreira Gomes, que queria deixar a paróquia, não estava em condições de poder servir. E então, o D. António mandou-me para Espinho onde eu fiz um ensaio da minha vida toda. Espinho foi a paróquia onde eu aprendi muitas coisas, e de alguma forma, me catapultou para a vida futura. Guardo Espinho, a Paróquia de Espinho no meu coração.
Depois de Espinho, o D. António Ferreira Gomes quis criar, como era…como estava a realizar-se em Portugal, o Secretariado Diocesano da Educação Cristã, ou da catequese. E como eu tinha feito em Espinho umas experiências na catequese, e o D. António fez-me um exame, e achou que eu poderia preencher esse lugar. E assim foi.
Foi em 1955 que eu vim para o Porto e que assumi o cargo que não tinha sido ainda experimentado por ninguém. A catequese. E nesse serviço, e para bem desse serviço, o Sr. D. António quis que eu participasse na Península Ibérica no curso do Padre Lombardi “Para um mundo melhor”. O D. António chamou cá o Padre Lombardi ao Porto. Falou a todo o clero no Seminário da Sé, e o Sr. D. António como que se tornou discípulo do Padre Lombardi nessas ideias interessantes. Três semanas de curso. Primeira semana, deitar abaixo aquilo que não estava… que não interessava nada. Segunda semana, construir. Terceira semana, perspetivas de futuro da Igreja. E falou-se nessa altura no Concílio… Um futuro Concílio. E sei que o Cardeal [Roncalli], depois, mais tarde, Papa João XXIII, também frequentou esse curso. E daí a uns tempos proclamou, convocou o Concílio Vaticano II.
Trabalhei na catequese cerca de 20 anos. Foi muito interessante porque o D. António também não sabia muito bem o que é que eu havia de fazer. Mandou-me visitar as catequeses do Porto. E eu disse ao senhor Bispo: ‘Oh, senhor Bispo, isso é de inspetor, e ninguém vai gostar de uma coisa dessas, porque eu sou um padre muito jovem e, portanto, eu não tenho experiência, e não me parece bem. Parece-me sim que ajudar os párocos na catequese é formar catequistas’. E foi o que nós começámos a fazer. E engraçado que fizemos a preparação dos catequistas a ponto de arranjarmos cursos. Curso de catequista, curso de iniciação, curso complementar. E fizemos muitos cursos, até com os padres, na Casa de São Paulo, em Cortegaça. Foi muito interessante esse trabalho. Encontrei na Diocese inteira muitos catequistas. Alguns eram de boa vontade. Encontrei uma catequista, em Entre-os-Rios, que não sabia ler. E ela dizia-me, perante os novos catecismos: ‘Eu tenho uma netinha que me ajuda a ler’. E de facto assim foi, lá ficou a senhora, porque nessa altura a catequese era dada nas casas dos catequistas. Poucas paróquias tinham salas de catequese. Poucas… E conseguimos arranjar secretários regionais da catequese de toda a Diocese.”
Santíssimo Sacramento, escuteiros e os jovens
“Em 73, um ano antes da Revolução de Abril, eu entrei na Paróquia como auxiliar de Monsenhor [Fonseca Soares], com muito gosto e com muita atenção, com muita alegria. Encontrei uma paróquia… bastante bem trabalhada e cheia de vida. Nessa altura, a Paróquia do Santíssimo Sacramento [na cidade do Porto] implantava-se numa região onde havia muitos pobres e muita gente que veio da província para trabalhar. E eu procurei realmente continuar o serviço do Monsenhor. Continuei respeitosamente o seu serviço, embora fosse um serviço difícil, mas muito feliz. Porque estava em contacto com as crianças, e eu gostava muito desse contacto com as crianças. As suas educadoras, os seus diretores, enfim, toda uma Paróquia que estava voltada para o bem fazer dos mais pobres e dos seus filhos, que frequentavam então, nessa altura, em grande número, o patronato, o chamado patronato, que mais tarde se tornou Centro Social Paroquial do Santíssimo Sacramento.
A melhor coisa de todas da Paróquia é o Santíssimo Sacramento. E, portanto, houve o Ano da Eucaristia. Nesse ano [2005], o bispo do Porto convocou o clero e fez um ensaio grande no Seminário de Vilar. Chamou cá o Bispo de Leão, em Espanha, que era o bispo encarregado em Espanha da liturgia, e ele até foi celebrar missa lá ao Santíssimo Sacramento. E eu falei, nessa altura, ao Sr. D. António Taipa, que era bispo auxiliar: “Não seria de se pensar nas 40 horas de Adoração ao Santíssimo Sacramento.” E ele achou a ideia muito, muito feliz. E disse: ‘Sim, sim’. E começámos a fazer as 40 horas.
Tenho aqui a Imagem da Senhora do Desterro, da minha terra, de Arada. E esta imagem quer dizer que Maria me acompanhou sempre. Eu consagrei a paróquia a Nossa Senhora, e tinha no meu quarto a sua imagem, aquela imagem que está acolá, Maria. E tinha pendurada em Nossa Senhora o mapa da nossa Paróquia, do Santíssimo Sacramento. E isto significava que lhe confiava a Paróquia do Santíssimo Sacramento. E assim foi.
E digo à Paróquia, e saúdo o Padre Joaquim, o Cónego Joaquim Santos, que agora é o novo pároco da Paróquia de Santíssimo Sacramento, que… A Paróquia tem muitas capacidades. Mormente, o Agrupamento 449, do Santíssimo Sacramento, que foi, realmente, uma das coisas maravilhosas que eu tive a alegria de fundar com o Chefe Sousa que foi o primeiro a trabalhar comigo no escutismo. E eu agradeço muito a esses jovens que me ajudaram muito e àqueles que agora continuam. Faço votos que sejam muito audazes. Eu dizia aos rapazes, aos escuteiros: ‘Queria que fossem o melhor agrupamento de escutismo do Mundo’. E é isso que eu lhes digo hoje também. Sejam escuteiros para um Mundo novo, um Mundo que espera muito da juventude. As estruturas do Mundo precisam da juventude.”
A paróquia do Santíssimo Sacramento celebrará no domingo 2 de fevereiro pelas 19 horas uma Eucaristia presidida pelo bispo do Porto, D. Manuel Linda, dando graças pelo centenário do Monsenhor Jorge, que dedicou a esta comunidade os seus cuidados pastorais como pároco durante 42 anos.